01/09/2011
 

 
 
     

 

MORTE ANUNCIADA

Pedro Israel Novaes de Almeida

 

            A morte de um bezerro, durante a festa do peão de Barretos (SP), inaugura um novo tempo, na busca de maior civilidade e respeito aos animais.

            O bezerro participava, sem o desejar, de uma prova denominada Bulldog, onde, apavorado, corria pela arena, seguido por um humano, cuja missão era torcer-lhe o pescoço, até a brutal queda e imobilização. O humano, mais uma vez, venceu, recebendo o aplauso da multidão, enquanto o animal jazia, tetraplégico.

            A Constituição brasileira proíbe o maltrato e tratamentos cruéis, aos animais, mas persiste solene e cinicamente desrespeitada. A multidão que aplaude a barbárie e as autoridades que a permitem não têm o direito de ignorar que ter o pescoço torcido em plena correria, até cair ao solo, causa muita dor, e pode ser fatal, conforme ocorrido em Barretos.

            Os amantes da selvageria, que atravessam séculos, costumam alegar que, entre um e outro maltrato, os animais são bem alimentados e recebem os melhores cuidados. O argumento pode servir de defesa a seqüestradores.

            Alegam, ainda, que os rodeios reúnem multidões, geram empregos e movem fortunas, argumento também aplicável à indústria, tráfico e consumo de crack. A alegação mais cínica e irracional, comum em quase todas as modalidades de rodeio, diz respeito à negação da dor, desconforto e pavor animal.

            Em pleno século 21, é um absurdo que ainda ocorram cenas medievais de maldade explícita, e absurdo maior que multidões aplaudam tais cenas, legalmente vedadas.  Já vige a proibição de rinhas de galo e apresentações de animais em circos, mas falta a imposição de limites éticos e legais aos rodeios, ainda que milionários e influentes.

            A sociedade brasileira já não concorda com os rodeios, e tem o direito de ver cumprida sua Constituição. O famigerado Bulldog e tantas outras modalidades cruéis devem ser varridas da cena nacional, e as imagens do bezerro de Barretos, sendo retirado da arena, já tetraplégico, deve ser mostrada à exaustão, para que não caiam no esquecimento.    

            O meio rural não é cruel, são os cruéis que aproveitam as feiras e eventos para espetáculos medievais. São urbanas as multidões que aplaudem o maltrato.

            Rodeio não é esporte nem diversão. Para ser esporte, ambos os contendores devem ser voluntários. É uma tara humana, capaz de ignorar tanto sofrimento e dor.

            O bezerro de Barretos não tinha o glamour do mico-leão-dourado, nem o fascínio da arara azul, mas era uma manifestação de vida, e como tal deveria ser respeitada.

            A persistirem impunes e incentivadas as crueldades, talvez cheguemos ao dia em que será considerado desumano o respeito aos animais.

                                                                                  pedroinovaes@uol.com.br

            O autor é engenheiro agrônomo e advogado, aposentado.