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MORTE
ANUNCIADA
Pedro Israel Novaes
de Almeida
A morte
de um bezerro, durante a festa do
peão de Barretos (SP), inaugura um
novo tempo, na busca de maior
civilidade e respeito aos animais.
O bezerro
participava, sem o desejar, de uma
prova denominada Bulldog, onde,
apavorado, corria pela arena,
seguido por um humano, cuja missão
era torcer-lhe o pescoço, até a
brutal queda e imobilização. O
humano, mais uma vez, venceu,
recebendo o aplauso da multidão,
enquanto o animal jazia,
tetraplégico.
A
Constituição brasileira proíbe o
maltrato e tratamentos cruéis, aos
animais, mas persiste solene e
cinicamente desrespeitada. A
multidão que aplaude a barbárie e as
autoridades que a permitem não têm o
direito de ignorar que ter o pescoço
torcido em plena correria, até cair
ao solo, causa muita dor, e pode ser
fatal, conforme ocorrido em
Barretos.
Os
amantes da selvageria, que
atravessam séculos, costumam alegar
que, entre um e outro maltrato, os
animais são bem alimentados e
recebem os melhores cuidados. O
argumento pode servir de defesa a
seqüestradores.
Alegam,
ainda, que os rodeios reúnem
multidões, geram empregos e movem
fortunas, argumento também aplicável
à indústria, tráfico e consumo de
crack. A alegação mais cínica e
irracional, comum em quase todas as
modalidades de rodeio, diz respeito
à negação da dor, desconforto e
pavor animal.
Em pleno
século 21, é um absurdo que ainda
ocorram cenas medievais de maldade
explícita, e absurdo maior que
multidões aplaudam tais cenas,
legalmente vedadas. Já vige a
proibição de rinhas de galo e
apresentações de animais em circos,
mas falta a imposição de limites
éticos e legais aos rodeios, ainda
que milionários e influentes.
A
sociedade brasileira já não concorda
com os rodeios, e tem o direito de
ver cumprida sua Constituição. O
famigerado Bulldog e tantas outras
modalidades cruéis devem ser
varridas da cena nacional, e as
imagens do bezerro de Barretos,
sendo retirado da arena, já
tetraplégico, deve ser mostrada à
exaustão, para que não caiam no
esquecimento.
O meio
rural não é cruel, são os cruéis que
aproveitam as feiras e eventos para
espetáculos medievais. São urbanas
as multidões que aplaudem o
maltrato.
Rodeio
não é esporte nem diversão. Para ser
esporte, ambos os contendores devem
ser voluntários. É uma tara humana,
capaz de ignorar tanto sofrimento e
dor.
O bezerro
de Barretos não tinha o glamour do
mico-leão-dourado, nem o fascínio da
arara azul, mas era uma manifestação
de vida, e como tal deveria ser
respeitada.
A
persistirem impunes e incentivadas
as crueldades, talvez cheguemos ao
dia em que será considerado desumano
o respeito aos animais.
pedroinovaes@uol.com.br
O autor é
engenheiro agrônomo e advogado,
aposentado. |
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