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02/02/2010
 
 

PORQUICE COLETIVA

 

Convém não espalhar, mas ainda somos um povo incivilizado.  
 

      Para grande parte da população, os rios são coletores de lixo, que levam qualquer material, de sofá velho a cachorro morto, para longe da residência de quem o joga. Como não habitam as praias, muitas pessoas nelas deixam plásticos, papéis, pedaços de frango, farofa, chinelos e tudo o que não seja moeda, ingresso para algum jogo ou show e bilhete de loteria. 
 

      Se o caminhão de lixo costuma passar às terças, já aos domingos o lixo é colocado diretamente na calçada, em pequenos sacos plásticos de supermercados, para alegria dos cães que possuem nome e residência, mas são criados em plena rua.  A separação do lixo, pelo menos em recicláveis e não recicláveis, ainda soa como ideal futurista. 
 

      Catadores de lixo para reciclagem, que prestam serviço público gratuito e pouco reconhecido, são tidos como beneficiários exclusivos da coleta seletiva, e ainda agradecem, humildemente, ao cidadão, que, com pose de herói, separou o lixo antes de destina-lo à lixeira.  Em alguns municípios, é grande a tentação de transforma-los em pagadores de tributos e licenças, pelo bem que causam. 
 

      Lixeiras públicas costumam freqüentar somente o centro das cidades, onde são encaradas mais como estorvo que utilidade. Nos bairros, as lixeiras públicas são as calçadas, ruas e quintais alheios. Um fumante será internado como doido varrido se guardar a bituca para levar para casa ou para alguma lixeira do centro da cidade. 
 

      Volantes não são ofertados aos transeuntes, mas colocados compulsoriamente em mãos alheias, para serem jogados alguns metros adiante, empestando bueiros e paisagens. Alguns municípios já estudam, com plena razão, a proibição da distribuição indiscriminada de volantes. A exemplo das propagandas eleitorais, muitos volantes comerciais sequer são entregues de mão em mão, mas lançados ao ar, por toda a cidade. 
 

       Terrenos não edificados funcionam como depósitos de problemas, asilando mato, cobras, aranhas, escorpiões, baratas, mosquitos da dengue, bandidos e lixo, muito lixo. Alguns são utilizados como motéis populares. As populações enfrentam o descaso e inoperância públicas, quando tentam denunciar os terrenos mal conservados. A solução costuma surgir quando a imprensa estampa o absurdo. 
 

      Aterros sanitários ainda não figuram como prioridade em muitos municípios, e a percepção popular é de que acabam punidas todas as administrações que, por cento e dez anos seguidos, descumpram os requisitos legais de destinação do lixo urbano.  
 

      São raros, raríssimos, os municípios que coletam o lixo rural, ainda que mensal ou quinzenalmente. Constitui um mistério a destinação final de garrafas pet, saquinhos de supermercado, latas, papéis e tantos outros entulhos, gerados na zona rural. 
 

      Não convém dizer que ainda somos porcos, até para preservar a imagem dos animais, mas é verdade que, em muitos municípios, população e governo atuam em conjunto, desrespeitando o ambiente alheio. As enchentes que assolam muitas cidades brasileiras seriam bem menos catastróficas se o lixo urbano fosse tratado com mais responsabilidade. 
 

      O lixo é mais um capítulo desastroso da novela de nosso saneamento básico, que ocupa mais discursos políticos que salas de aula e responsabilizações. O saneamento, que já foi direito de todos, está sendo reduzido a mais uma atividade comercial, tão mais lucrativa quanto mais incompletamente realizada. 
 

                                          pedroinovaes@uol.com.br 
 

      O autor é engenheiro agrônomo e advogado, aposentado.


 
   
     
 


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