Convém não
espalhar, mas ainda somos um povo incivilizado.
Para
grande parte da população, os rios são coletores
de lixo, que levam qualquer material, de sofá
velho a cachorro morto, para longe da residência
de quem o joga. Como não habitam as praias,
muitas pessoas nelas deixam plásticos, papéis,
pedaços de frango, farofa, chinelos e tudo o que
não seja moeda, ingresso para algum jogo ou show
e bilhete de loteria.
Se
o caminhão de lixo costuma passar às terças,
já aos domingos o lixo é colocado diretamente na
calçada, em pequenos sacos plásticos de
supermercados, para alegria dos cães que possuem
nome e residência, mas são criados em plena rua.
A separação do lixo, pelo menos em recicláveis
e não recicláveis, ainda soa como ideal
futurista.
Catadores
de lixo para reciclagem, que prestam serviço
público gratuito e pouco reconhecido, são tidos
como beneficiários exclusivos da coleta
seletiva, e ainda agradecem, humildemente, ao
cidadão, que, com pose de herói, separou o lixo
antes de destina-lo à lixeira. Em alguns
municípios, é grande a tentação de
transforma-los em pagadores de tributos e
licenças, pelo bem que causam.
Lixeiras
públicas costumam freqüentar somente o centro
das cidades, onde são encaradas mais como
estorvo que utilidade. Nos bairros, as lixeiras
públicas são as calçadas, ruas e quintais
alheios. Um fumante será internado como doido
varrido se guardar a bituca para levar para casa
ou para alguma lixeira do centro da cidade.
Volantes
não são ofertados aos transeuntes, mas colocados
compulsoriamente em mãos alheias, para serem
jogados alguns metros adiante, empestando
bueiros e paisagens. Alguns municípios
já estudam, com plena razão, a proibição da
distribuição indiscriminada de volantes. A
exemplo das propagandas eleitorais, muitos
volantes comerciais sequer são entregues de mão
em mão, mas lançados ao ar, por toda a cidade.
Terrenos não edificados funcionam como depósitos
de problemas, asilando mato, cobras, aranhas,
escorpiões, baratas, mosquitos da dengue,
bandidos e lixo, muito lixo. Alguns são
utilizados como motéis populares. As populações
enfrentam o descaso e inoperância públicas,
quando tentam denunciar os terrenos mal
conservados. A solução costuma surgir quando a
imprensa estampa o absurdo.
Aterros
sanitários ainda não figuram como prioridade em
muitos municípios, e a percepção popular é de
que acabam punidas todas as administrações que,
por cento e dez anos seguidos, descumpram os
requisitos legais de destinação do lixo urbano.
São
raros, raríssimos, os municípios que coletam o
lixo rural, ainda que mensal ou quinzenalmente.
Constitui um mistério a destinação final de
garrafas pet, saquinhos de supermercado, latas,
papéis e tantos outros entulhos, gerados na zona
rural.
Não
convém dizer que ainda somos porcos, até para
preservar a imagem dos animais, mas é verdade
que, em muitos municípios, população e governo
atuam em conjunto, desrespeitando o ambiente
alheio. As enchentes que assolam muitas cidades
brasileiras seriam bem menos catastróficas se o
lixo urbano fosse tratado com mais
responsabilidade.
O
lixo é mais um capítulo desastroso da novela de
nosso saneamento básico, que ocupa mais
discursos políticos que salas de aula e
responsabilizações. O saneamento, que já foi
direito de todos, está sendo reduzido a mais uma
atividade comercial, tão mais lucrativa quanto
mais incompletamente realizada.
pedroinovaes@uol.com.br
O
autor é engenheiro agrônomo e advogado,
aposentado.