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Sandra Gomide
Foi em 2000; foi há
dez anos; foi precisamente em vinte de agosto de
2000. Neste dia, Antônio Marcos Pimenta Neves
disparou dois tiros e mais uma mulher foi abatida
pelo machismo estúpido, mais uma ex-namorada, como
milhares, foi-se. Nunca foi negada a autoria. Foi
condenado a 19 anos de prisão em 2006 e nunca ficou
um dia preso.
São fatos como este
que demonstram quão fraca é a sociedade perante a
força do Estado. Qualquer cidadão comum defende que
uma pessoa que mata outra de forma deliberada, com
intenção, o chamado dolo, deve ser punida pelo
crime. Se essa pergunta fosse feita a quem praticou
o ato, com certeza a resposta seria a mesma. Então,
a sociedade é totalmente favorável a condenação de
Pimenta Neves, como seria de qualquer outro autor de
assassinato. Se a mesma pergunta fosse feita a quem
tem o dever de aplicar a sanção, a resposta seria no
mesmo sentido. No Brasil, essa função de Estado é
exclusiva do Poder Judiciário. A estranheza fica por
conta do assassino confesso estar solto, sem
julgamento, após mais de uma década.
É de conhecimento
geral o comodismo da sociedade brasileira. O que não
se diz sobre essa acomodação, é que se ela não vem
imposta pelo Estado, este não dá meios para atuação,
nem estimula a quebra dessa quietude. Sobre o caso
que aqui se trata, nenhum brasileiro comum saberia
em qual Tribunal está o processo, em que fase está,
nem o nome do relator do processo, nem por que o
processo não chega a um julgamento definitivo, mesmo
que o fato tenha ocorrido há pouco mais de 10 anos.
Também é praxe às
autoridades apresentarem argumentos na tentativa
clara de convencer a sociedade de que seria normal e
aceitável uma pessoa matar alguém, qualquer que seja
a forma, e continuar desfrutando de praia e uísque
11 anos após. Inúmeros textos não faltam neste
sentido. Justiça não deve seguir lógica fordinista,
de Marcus Orione Gonçalves Correia, grosso modo,
afirmando que Justiça não se produz como em fábrica.
Todo mundo concorda com isso, do mesmo modo que
ninguém concorda que a Justiça seja a última numa
maratona de cágados e tartarugas. Alegar que a
Justiça precisa de tempo para julgar bem tem sido a
tônica. Outro posicionamento inconteste por todos.
Da mesma forma que nenhum julgamento pode ser
razoável depois de décadas. Repita-se: não haverá
justiça nenhuma, qualquer que seja a decisão e a
pena, depois de uma década do fato.
Devido ao autor e
vítima serem pessoas renomadas, o andamento do
processo deveria merecer maior celeridade. Um
julgamento justo é presunção da própria Justiça no
sentido literal, social; e no sentido formal, Poder
de Estado. Por serem famosos, serviria como exemplo
de abrangência nacional, devido à repercussão. Da
mesma forma que a continua impunidade estimula a
quem pretenda cometer delitos, com a certeza de que
não será punido.
Portanto, a sociedade,
as instituições envolvidas precisam se mobilizar de
forma incisiva para evitar a impunidade em geral. No
caso concreto, nem mesmo o Conselho Nacional de
Justiça - CNJ consegue incluir esse processo dentre
suas metas de julgamentos atrasados. Para não
suscitar suspeitas, a imprensa deveria noticiar mais
de perto o andamento de processos que envolvem
famosos. A Ordem dos Advogados do Brasil, o ministro
da Justiça e outras instituições deveriam se
manifestar sobre esses casos infinitamente sem
julgamento.
Mas o Poder Judiciário
deve, ao menos, disponibilizar o acesso aos
processos, pois são públicos, e não há razão para
sigilo, a não ser para auxiliar a confirmação da
impunidade. Neste caso, a sociedade tem o direito de
saber quem é o relator e por que, após o transcurso
de mais de uma década, ainda não há um julgamento
definitivo.
Não se quer que o
Poder Judiciário o condene injustamente; apenas que
o julgue e aplique a pena justa para o caso. Só não
se pode admitir que continue rindo da cara das suas
vítimas vivas, os pais de Sandra Gomide, um nome que
representa as várias mulheres assassinadas por
valentões, amparados pela impunidade. Quem sacia sua
estupidez em ceifar uma vida tem que assumir a
responsabilidade e ter a certeza da punição que,
qualquer que seja, não faz jus a uma vida perdida.
Enquanto o silêncio
ampara a impunidade, enquanto os pais da vítima
andam amparados por muletas e sem dinheiro para
comprar remédio, o assassino pode curtir sua praia e
seus mimos e aproveita a sua impunidade.
Pedro Cardoso da Costa
– Interlagos/SP
Bel. Direito
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