02 / 11 / 2011
 

 
 
     

 

GUERRA DO TRÂNSITO

Pedro Israel Novaes de Ameida

 

            A população brasileira já cabe, inteirinha, dentro dos veículos que andam por aí.

            Os veículos, um para cada três brasileiros, já não cabem em nossas ruas e avenidas, e o trânsito é cada vez mais lento, inseguro e irritante. Até pequenas cidades já apresentam problemas de estacionamento, nas áreas centrais.

            As obras voltadas à melhoria do trânsito perdem a eficiência em poucos anos. Em breve, a população residente será definida como o amontoado de pessoas que sobrevive, em meio a viadutos, ruas, avenidas e estacionamentos.

            Recursos públicos e espaços humanos são, diária e tragicamente, direcionados à solução dos problemas causados pelo transporte individual.  Inseguro,desconfortável e pouco disponível, o transporte coletivo frequenta mais discursos que orçamentos.

            Enquanto outros povos morrem em lutas fraticidas, nossas mortes decorrem, em grande parte, de acidentes de trânsito, causados mais por falha humana que por probemas técnicos ou imperfeições das estradas. Trechos com altos  indices de acidentes não inibem os desrespeitos às normas, nem atraem a fiscalização.    

            No Brasil, aumenta a cada dia o número de acidentes de trânsito, envolvendo motoristas embriagados. As consequências, em regra, acabam restritas ao âmbito administrativo, pouco restando à seara penal.

            Nossa legislação é repleta de frescuras jurídicas e não-me-toques de cidadania, desobrigando o motorista de submeter-se ao bafômetro, sob o argumento de que ninguém é obrigado a produzir provas contra si mesmo. Aqui, a presunção de inocência é vista como certeza de impunidade.

            É direito da sociedade presumir embriagado o motorista que negar-se ao teste de consumo etílico, e tal direito deve integrar os textos legais. O número de vítimas e a contumácia da embriaguez ao volante exigem a priorização da sociedade, em detrimento de eventual e discutível interesse individual.

            Os ambientes urbanos estão congestionados e aterrorizados pela movimentação sempre apressada e pouco reverente de motocicletas, que serpenteiam impunes por espaços alheios. Nossas UTIs estão repletas de motociclistas.

            Não estávamos preparados para tamanha proliferação de veículos. Os licenciamentos, em sua maioria efetuados em terminal bancário, são automáticos, ainda que os pneus estejam carecas, os breques ausentes e os faróis caolhos.

            A falta de fiscalização permite que veículos circulem ensurdecedores, com sons que fazem tremer as calçadas e acordar a vizinhança. Rachas são praticados com hora e local previamente anunciados.

            A visão típica e futurista do trânsito nacional aponta para o cidadão com o carro parado, em pleno congestionamento, portando, em uma das mãos, o celular, e, em outra, uma lata de cerveja.  A educação é pouca, mas as estatísticas teimam em insinuar que crescemos.

                                                                                           pedroinovaes@uol.com.br

            O autor é engenheiro agrônomo e advogado, aposentado.