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GUERRA DO TRÂNSITO
Pedro Israel Novaes de Ameida
A
população brasileira já cabe,
inteirinha, dentro dos veículos que
andam por aí.
Os
veículos, um para cada três
brasileiros, já não cabem em nossas
ruas e avenidas, e o trânsito é cada
vez mais lento, inseguro e
irritante. Até pequenas cidades já
apresentam problemas de
estacionamento, nas áreas centrais.
As obras
voltadas à melhoria do trânsito
perdem a eficiência em poucos anos.
Em breve, a população residente será
definida como o amontoado de pessoas
que sobrevive, em meio a viadutos,
ruas, avenidas e estacionamentos.
Recursos
públicos e espaços humanos são,
diária e tragicamente, direcionados
à solução dos problemas causados
pelo transporte individual.
Inseguro,desconfortável e pouco
disponível, o transporte coletivo
frequenta mais discursos que
orçamentos.
Enquanto
outros povos morrem em lutas
fraticidas, nossas mortes decorrem,
em grande parte, de acidentes de
trânsito, causados mais por falha
humana que por probemas técnicos ou
imperfeições das estradas. Trechos
com altos indices de acidentes não
inibem os desrespeitos às normas,
nem atraem a fiscalização.
No
Brasil, aumenta a cada dia o número
de acidentes de trânsito, envolvendo
motoristas embriagados. As
consequências, em regra, acabam
restritas ao âmbito administrativo,
pouco restando à seara penal.
Nossa
legislação é repleta de frescuras
jurídicas e não-me-toques de
cidadania, desobrigando o motorista
de submeter-se ao bafômetro, sob o
argumento de que ninguém é obrigado
a produzir provas contra si mesmo.
Aqui, a presunção de inocência é
vista como certeza de impunidade.
É direito
da sociedade presumir embriagado o
motorista que negar-se ao teste de
consumo etílico, e tal direito deve
integrar os textos legais. O número
de vítimas e a contumácia da
embriaguez ao volante exigem a
priorização da sociedade, em
detrimento de eventual e discutível
interesse individual.
Os
ambientes urbanos estão
congestionados e aterrorizados pela
movimentação sempre apressada e
pouco reverente de motocicletas, que
serpenteiam impunes por espaços
alheios. Nossas UTIs estão repletas
de motociclistas.
Não
estávamos preparados para tamanha
proliferação de veículos. Os
licenciamentos, em sua maioria
efetuados em terminal bancário, são
automáticos, ainda que os pneus
estejam carecas, os breques ausentes
e os faróis caolhos.
A falta
de fiscalização permite que veículos
circulem ensurdecedores, com sons
que fazem tremer as calçadas e
acordar a vizinhança. Rachas são
praticados com hora e local
previamente anunciados.
A visão
típica e futurista do trânsito
nacional aponta para o cidadão com o
carro parado, em pleno
congestionamento, portando, em uma
das mãos, o celular, e, em outra,
uma lata de cerveja. A educação é
pouca, mas as estatísticas teimam em
insinuar que crescemos.
pedroinovaes@uol.com.br
O autor é
engenheiro agrônomo e advogado,
aposentado. |