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CRENÇAS E ATITUDES

Pedro Israel Novaes de Almeida

 

         Existem comportamentos que contradizem dizeres e convicções.

         Alguns são capazes de postura angelical, professando à exaustão a fé cristã, e no entanto pouca fraternidade dispensam aos semelhantes, já não reconhecidos como irmãos, quando distantes dos templos.

         Proprietários de veículos equipados com estridentes sistemas sonoros cuidam, com aparente naturalidade, de estremecer calçadas e perturbar o sossego alheio, mas desligam a fonte do barulho, na residência própria ou materna.

         Alguns esquerdistas dinossáuricos vivem bradando pelos direitos de expressão, organização e ir e vir, mas silenciam quando tais direitos são afrontados por governos tipicamente comunistas ou simpatizantes, a exemplo de Cuba.

         Pais vanguardistas curvam-se aos novos tempos e hábitos, achando natural a ingestão de álcool, drogas leves e precocidade sexual, desde que não exercidas pelos próprios filhos.

         Subalternos, muitos, passam a vida maldizendo as atrocidades dos chefes, até que conseguem herdar-lhes o cargo, e repetem as mesmas posturas que anteriormente maldiziam.

         Políticos apresentam-se como paladinos da boa gestão e honestidade, mas podem filiar-se ao império da corrupção e desfaçatez, uma vez eleitos.

         Boas ou ruíns, o ideal seria que as pessoas fossem previsíveis e coerentes. Criminosos e marginais costumam sê-lo, em maior escala que os frequentadores de estratos mais virtuosos.

         As baixarias da mídia e os desrespeitos de cada dia estão acuando o cidadão comum, que tende a não mais professar crenças e valores, sob pena de ser identificado como politicamente incorreto. A mudez social de grande parcela dos brasileiros é resultado da omissão dos governos, que não acodem os reclamos de perturbação do sossego, formação de cracolândias, festas raves em plena esquina, gangs postadas à frente das escolas e intimidação por flanelinhas, dentre tantos.

         Os próprios governos acabaram acovardados, tendendo a evitar ações de repressão, mesmo quando civilizadas. Existe em curso uma campanha contra as ações da Polícia Militar, tentando criar territórios sem lei, seja no câmpus universitário, terreno sob determinação judicial de desocupação ou  shows de Rock.

         A incoerência e imprevisibilidade sempre figuraram como mazelas humanas, mas ameaçam agora integrar as ações dos governos.

                                                                  pedroinovaes@uol.com.br

         O autor é engenheiro agrônomo e advogado, aposentado.