Todo governo é composto por compartimentos,
interligados pela figura do administrador central,
prefeito, governador ou presidente.
Na prática, quem participa de um
compartimento assume o compromisso tácito de não
criticar ou interferir no compartimento alheio, sob pena
de configurar desavenças internas, nem sempre desejadas.
Distribuindo os diversos compartimentos, o governante
acaba por submeter um grande número de pessoas à
co-responsabilidade e defesa de sua gestão.
Quando a distribuição é feita a partidos com
representação legislativa, estes acabam compondo a base
de sustentação do Executivo, pouco ou nada criticando as
pastas geridas por outras agremiações. Tal engessamento
e cooptação de partidos recebe o pomposo e impróprio
nome de governabilidade, garantindo o mínimo
indispensável de apoio legislativo.
No Brasil, a constituição de maiorias
legislativas não costuma partir da comunhões de idéias,
programas e atitudes, mas da participação e ingerência
dos partidos, na gestão executiva.
É simplista, ofensiva e imoral a noção de
que compete, às oposições, a fiscalização, o alarido e
as ações que visem dificultar a consagração pública dos
governantes. Tal noção reserva, às bases de apoio, a
defesa compulsória de todo e qualquer feito ou malfeito
oficial, impedindo ou dificultando a constituição de
CPIs.
Tal realidade amesquinha e mutila o Legislativo,
tornando inexistente e pouco praticada a independência e
harmonia entre os poderes. Parlamentares com ingerência
no Executivo, que apadrinham nomeações comissionadas,
tendem a fazer do mandato um périplo por ante-salas e
gabinetes, à busca de verbas e ações que figurarão como
favores pessoais, nas eleições, viciando-as.
A anomalia, histórica, compromete a segurança jurídica e
a tranqüilidade da população, pois bases de apoio
extremadas podem transformar em lei qualquer vontade ou
idiossincrasia do governante. O presidente Lula só não
disputará o terceiro mandato consecutivo por mérito e
decisão pessoal, jamais pela perspectiva do Congresso
desaprovar tal inovação.
Maiorias oportunistas e clientelistas ensejam ditaduras,
iniciadas sob o enganoso manto da representação popular.
Nos municípios, onde a vida partidária beira a ficção,
as nomeações configuram o aproveitamento de um ou outro
cidadão, jamais a participação de agremiações, nos
governos.
É anti-ética a postura de plena concordância com todos
os atos oficiais, à pretexto de pertencer a grupo que
ocupa um ou outro compartimento da administração
pública. Existem exceções, tão raras quanto honrosas,
como o senador gaúcho Pedro Simon, PMDBista que não
abriu mão se um milímetro sequer de suas convicções,
mesmo pertencendo a partido assumidamente (e sempre)
governista.
Em ano eleitoral, convém sondar se os candidatos à
reeleição foram capazes de aplaudir acertos e apontar
erros, desvios e corrupções, exigindo correção e
apurando responsabilidades. A medida é aconselhada, pois
podemos, sem o saber, estar ouvindo pregações virtuosas
de quem, na prática, trocou o mandato pela busca de
verbas e favores, pouco importando com a promiscuidade
que gera tanta miséria e desesperança.
pedroinovaes@uol.com.br
~~ impedindo ou
dificultando a constituiço oficial
O autor é engenheiro agrônomo e advogado,
aposentado.