Serventuários
da Justiça
João Baptista
Herkenhoff
Fala-se muito
sobre a necessidade de ser a
Justiça integrada por juízes
competentes e honestos.
Discute-se o
Ministério Público, seu
relevante papel como fiador e
guardião de todo o aparato
judiciário.
Não se deixa de
trazer à baila a
indispensabilidade dos advogados.
Sem estes não há Justiça.
Em meio a toda
essa discussão, é raro que se
veja colocada a imprescindível
presença dos serventuários e
funcionários da Justiça. Omissão
lamentável porque a Justiça só
funciona bem quando conta com
bons servidores.
Machado de Assis,
num apólogo antológico, criou um
diálogo entre a agulha e a linha,
a linha querendo depreciar a
agulha porque a linha é que
aparecia nas vestes dos salões,
enquanto a agulha permanecia
obscura no seu canto.
Como em tudo que
Machado escreveu, sempre havia
uma mensagem universal acima do
significado textual.
A página de
Machado é uma advertência a
todos aqueles que, no topo das
instituições, pretendem a
homenagem e o reconhecimento,
sem compreender que, na
retaguarda de tudo que fazem, há
uma agulha tecendo e abrindo
caminho.
Como seria
alvissareiro que magistrados,
membros do Ministério Público e
advogados estivessem sempre
atentos ao esforço silencioso
dos serventuários e funcionários
da Justiça. Como deveria ser
exaltado o desempenho das
imprescindíveis agulhas. E
quantas vezes, infelizmente,
essas agulhas são esquecidas,
deixadas de lado e até
menosprezadas.
Se a Justiça não
é justa com seus servidores,
será justa com os cidadãos em
geral? Se fecha os olhos diante
daqueles que estão diuturnamente
fazendo audiências, movimentando
processos, cumprindo mandados,
cerficando e dando fé, será
capaz de ter ouvidos abertos
para ouvir o clamor do povo que
pede Justiça?
Acho que não. Um
Poder Judiciário que não
valoriza seus agentes, que não
reconhece os serviços daqueles
que, na mesma nau, fazem o barco
andar, esse Poder Judiciário
mostra-se absolutamente incapaz
de dar a cada um o que é seu.
Esta reflexão
brota de minha alma no momento
em que recebo a notícia de que
faleceu o Dr. Epaminondas Gomes
Moreira, um Serventuário
exemplar na comarca de São José
do Calçado.
Epaminondas, no
Cartório, foi sempre um servidor,
nunca se serviu. Tratou os ricos
com cortesia altiva e os pobres
com evangélica doçura.
Sua postura
sempre humilde escondia um
gigante ético, um paradigma de
ser humano, como cidadão,
serventuário da Justiça,
professor do Colégio de Calçado,
esposo, pai.
À sua memória
nossa homenagem, a sua família
nosso abraço de pêsames.
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