Palocci, O Midas do governo
Pedro Cardoso da Costa – Bel. Direito
Interlagos/SP
Quando
aparecem gravações de políticos recebendo
dinheiro de corrupção, logo surgem os
defensores a culpar as imagens. Antes das
câmeras, os deslizes eram gravados somente
em voz. Aí, alguns negavam as vozes ou não
lembravam o ocorrido porque estavam meio
grogues de remédio, meio embriagados, ou
sonolentos. Esses argumentos eram tão comuns
e convincentes quanto às recorrentes
justificativas do enriquecimento dos
políticos da noite para o dia, cujos
exemplos maiores são do Lulinha, filho do
ex-presidente e do genial Palocci.
Como dizem nossos políticos, desvios e
corrupção existem no mundo todo. E é
verdade; embora nunca citem a diferença de
que na maioria dos países desenvolvidos ela
seja exceção, enquanto por aqui é a regra
absoluta e reinante. O fato mais relevante
não seria o tratamento igual entre a
exceção, lá, da regra, por aqui, mas como o
problema é encarado pelos envolvidos e a
sociedade lá fora e aqui.
Lá, as instituições apuram os fatos e tratam
com maior rigor as pessoas que se aproveitam
da função pública para servir de exemplo.
Por cá, as autoridades são as primeiras a
traçarem defesa prévia e isso foi visto com
o procurador-geral da república no caso do
enriquecimento do ministro Palocci. Ora,
senhor defensor da lei, a regra de que
ninguém é culpado sem condenação serve, na
mesma proporção, para não inocentar ninguém
antes da apuração. Mesmo as apurações
marias-moles, ou de faz-de-conta, como são
as daqui. Os institutos de pesquisa, que
tanto trabalham nas eleições, deveriam
perguntar se o brasileiro acredita nas
apurações quando os envolvidos são de
vereador para cima.
Aqui, as coisas mais absurdas acontecem e
são tratadas como se nada de anormal tivesse
acontecido. Aqui, nada passa do razoável. No
caso do enriquecimento de Palocci, é anormal
por si. Não há na história da humanidade
quem tenha conseguido multiplicar por 20, em
quatro anos, o que levou uma vida inteira de
quase 60 anos para conseguir. Somente o
roubo, o tráfico ou outra atividade dessa
natureza pode gerar fenômeno igual. Como eu,
qualquer um que duvidar da regularidade
desse enriquecimento, será ridicularizado.
Como Voltaire, defenderei até a morte o
direito de ele se explicar, mas não
acreditarei numa vírgula do que ele disser.
Esse enriquecimento só é aceito pelos
políticos brasileiros e suas assessorias,
dentre eles, alguns jornalistas. Não me
convencerá nem se ele disser que teve mais
sorte do que o anão João Alves e ganhara
mais de 200 vezes na loteria, a outra forma
lícita de enriquecimento relâmpago, além de
herança.
O senso do ridículo precisa chegar aos meios
políticos e de todos os agentes públicos. A
cara-de-pau com que tentam convencer do
impossível é de deixar todos descrentes de
que este país ainda tenha algum jeito.
Aceitar que é mera coincidência a liberação,
por um órgão do governo, de milhões para uma
empresa no mesmo período em que ela doa
milhões para a campanha do candidato do
governo federal é simplesmente conveniência
ou cinismo, para ser ameno.
Palocci pode muito; pode quase tudo. Pode
até ensinar a aos seus consultores a ganhar
o reino dos céus; mas deve ter feito aula
com o delegado Di Rissio, de São Paulo, que
comprara um apartamento de mais de 1,5
milhão, e tinha outro acertado por quase o
mesmo valor, com um salário de pouco mais de
8 mil reais. Ele pode comprovar
documentalmente tudo. Mas é preciso ser
insano para acreditar que alguém é capaz de
pagar 20 vezes por um serviço apenas pela
qualidade do executor. Esse tipo de
justificativa precisa de um sonoro e
definitivo basta. Este país precisa dar uma
basta em muita coisa; nas inexplicáveis
coincidências; no enriquecimento descomunal
dos políticos, especialmente dos prefeitos,
indistintamente, que se tornam gênios após
eleitos; nas apurações que nunca resultam em
nada, sempre quando o envolvido é do andar
de cima. Basta, Brasil, basta!
Da mesma forma que tudo será justificado
devidamente, é possível que somente os
críticos venham a ser punidos. O mensalão é
exemplar. Só a funcionária que não aceitou
participar do esquema foi penalizada. Mera
coincidência. Daqui a um ano Palocci deverá
estar duzentas vezes mais rico apenas com os
recursos das indenizações pagas pelos que
duvidaram da sua fase de Midas.
Quero declarar ao procurador-geral da
República, à senhora presidenta da
República, à corriola de senadores e
deputados federais e todos os defensores ou
coniventes com essa indecência, que este
cidadão defende e avoca o seu direito
subjetivo de não acreditar numa vírgula
sobre a regularidade desse enriquecimento,
independentemente da prova que vier, pelo
simples fato da impossibilidade. Com todos
os pés atrás, aceitaria até o dobro, com
exagero absurdo, o triplo, mas por 20,
nunca.