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Turismo fatal
De novo o Rio de
Janeiro foi à vitrine nacional em
maus exemplos, em descaso com a
pessoa humana, na negligência dos
gestores públicos. Trata-se de uma
sequencia que já vem de longe. Em
2010 mostrou o morro do Bumba
soterrando gente e depois, soube-se
que as pessoas moravam ali com a
anuência da prefeitura, com o
prefeito no seu quarto mandato. No
início deste ano bateu o recorde de
gente arrastada pelas águas como se
fosse um brinquedo. Nem sequer as
autoridades foram capazes do contar
os mortos com exatidão. O Bateau
Much já foi lembrado em outros
artigos. O Rio de janeiro é bastante
inovador, principalmente nas
desgraças.
Foi no Rio de Janeiro
que as Forças Armadas substituíram
os funcionários da saúde há alguns
anos. Foi lá que houve o primeiro
resgate de um bandido com
helicóptero. De lá se têm notícia
que policiais tomam o lugar dos
bandidos para achacar moradores, com
as chamadas milícias, nome
dissimulado como sinônimo de bando
armado. Não muda nem o discurso das
autoridades. Como sempre, a culpa
recai em quem morreu.
Sérgio Cabral é o
Hugo Chaves do Rio de Janeiro,
sempre muito compadecido, no que não
é novo, como quando assegurou a
dignidade dos mortos nas enchentes
de 2010. Tão dissimulado quanto o
venezuelano, o acompanha na
incompetência e na arrogância.
Esse bondinho
tornou-se o símbolo maior de
inovação carioca. É a primeira
pessoa jurídica a se tornar um
serial killer. Mata em série.
Primeiro foi a professora
Andrea de Jesus Resende,
em 2009; ano passado, o francês
Damien Charles Pierson, e agora, em
2011, mais cinco.
Apesar de inovar em
quase tudo, nos comportamentos
copia-se quase tudo dos americanos.
Ver do alto os estragos das
tragédias é uma; reconhecer falhas
humanas, é outra, sempre de quem
morreu e falhas de equipamentos,
mais uma cópia americana.
Necessidade de prova
não há, por ser evidente a falta de
manutenção. Nem é o caso, pois
sobram provas, de depoimentos
gravados a documentos registrados.
Todos os responsáveis sabiam que
havia peças amarradas com arame e
que alguns bondes caiam aos pedaços.
Nada foi feito para impedir. Mesmo
assim, com pessoas sendo remuneradas
essas funções de direção, não há
responsáveis. O motorneiro suicida
não estraçalharia o bonde num poste
sem determinação de alguém. E alguém
determina quais e quantos bondes
devem funcionar; e assim até se
chegar a quem deveria liberar verba.
Bonde não cai do céu,
a não ser no Rio de Janeiro,
literalmente. É preciso que o
Ministério Público, em todas as suas
representações, assuma de vez que as
pessoas fictícias de Direito são
dirigidas por pessoas físicas. E que
quem autoriza o funcionamento de um
veículo automotor sem as mínimas
condições de segurança, assume o
risco pelos resultados. E se o
resultado é morte, alguém tem que
responder criminalmente. Não preciso
ensinar a doutrina aos promotores
que assumir o risco é o
correspondente a ter a intenção,
denominado de dolo eventual, como
nunca sabe, ou não quer, distinguir
a grande mídia.
Faz-se necessário
criar a cultura do exercício do
poder, dever se tornar obrigatório
de fato para acabar com esse descaso
com a vida, que chega ao ponto de
uma pessoa fraturada esperar, à lá
Jesus Cristo, pelo capricho de um
político carcomido descer do jatinho
da filha, como uma tartaruga, em
flagrante deboche ao martírio
alheio. Se alguém ainda não foi
punido pelas mortes turísticas no
Rio de Janeiro, que se verifique o
prazo de prescrição, outra indústria
a serviço da impunidade, e puna-se a
quem tinha o dever de cuidar e
assumiu o risco pela morte de
inocentes.
Ou se acaba o turismo
da morte ou se coloque na propaganda
oficial para o mundo: “quer uma
morte em coletividade, bem
divertida, venha para o Rio de
Janeiro. O bondinho de Sérgio Cabral
te leva para o céu”.
Pedro Cardoso da
Costa – Interlagos/SP
Bel. Direito |
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