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Amigos-objeto
Milton Nascimento tem
razão quando na sua música, Canção
da América, diz que “amigo é coisa
pra se guardar debaixo de sete
chaves dentro do coração”.
Acrescenta que deve ficar do lado
esquerdo do peito.
Com pretensão, deduzo
dizer que o astro pretende afirmar
que um amigo verdadeiro seria uma
preciosidade rara, que deveria ser
preservada de todas as formas e a
qualquer preço; com muito respeito e
ética, sempre de maneira sadia, com
muita curtição. Isso seria a parte
simbólica da feliz frase. Até aí
tudo estaria correto, se a presunção
de amizade não fosse uma relação
própria, cada uma com valores e
compromissos específicos. É triste
porque é uma verdade literal. Ter
amigo verdadeiro é mesmo raro. Dá
para se denotar o valor material de
quase a totalidade dos amigos. Por
isso a maioria das amizades tem
prazo de validade.
Já afirmaram que o
tempo seria o senhor da razão, eis
que as duas colocações aos poucos
vão se encaixando noutra, já batida,
de que a idade torna uma pessoa mais
madura, quando o sentido verdadeiro
é que idade a torna mais cética e
sem confiança nas suas relações
interpessoais, quaisquer que sejam
elas.
Para manter algumas
amizades, a cada dia que passa muita
gente tenta usar de falsidade
interior para aceitar os amigos como
eles são, como se alguém pudesse ser
de outra maneira que não a sua
própria.
Torna-se um dilema
quando se percebe que não existe
reciprocidade, requisito natural em
razão da necessidade de identidade
natural de valores. Mesmo
dispensando as implicações mais
fortes do cotidiano, poder-se-ia
conviver com as fixações de
sinceridade, fidelidade e correção.
Existindo sinceridade em qualquer
situação já seria suficiente para se
manter uma amizade, senão profunda,
confiável.
Quando muitos pensam
que falta lugar até do lado direito
do peito para acomodar tantos
amigos, começam a surgir vagas
quando se descobre que num amigo
estaria faltando um dos valores
referidos e o afastamento é
inevitável. E existe um vácuo de
todos os requisitos de uma amizade
plena na maioria. Isso esvazia o
pobre coração confiante e feliz até
então. Com o mundo todo
supervalorizando a concorrência
desleal, a vantagem indevida, o
primeiro lugar a qualquer custo, a
amizade baseada no calor humano - o
sentimento, o querer bem ao outro –
fica a cada dia apenas no imaginário
dos românticos.
Hoje, você sabe
quanto custa financeiramente cada
pretenso amigo. Existem pessoas
sustentando a amizade somente, e na
proporção, da expectativa de
vantagens que poderiam tirar.
Por causa desse tipo
de amigo, muita gente está com o
lado esquerdo desocupado, mesmo
querendo mantê-lo lotado de apreço,
de carinho, de amor para
compartilhar. Milhões de corações
estão vazios; tristes; até
desolados. A quantidade de pessoas
que só têm interesses mesquinhos é
bem maior.
Não se sabe se teria
cura para tanto egoísmo. Com
certeza, muitas pessoas não
compreendem quanto o seu gosto
apenas por objetos infelicitam
outras que valorizam troca de
informação, bate-papo, brincadeiras,
histórias, além de um ombro e ouvido
dignos de uma bela confissão. Aquela
coisa boba que só tem importância
para quem conta com exclusividade
para aquele ouvido louco para
registrar a tolice. Apenas um sonho
de saudosista, inimaginável para os
amigos-objeto.
Pedro Cardoso da
Costa – Interlagos/SP
Bel. Direito |