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ARTIGOS
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11/01/2010 |
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DESASTRES QUASE NATURAIS |
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As
chuvas surgiram torrenciais, inundando,
destruindo e infelicitando.
Enquanto
uns apóiam e socorrem as vítimas, outros furtam
os pertences das casas inundadas. Enquanto a
maioria providencia alimentos, remédios e
roupas, alguns aproveitam para elevar o preço
das mercadorias em falta.
Heróis
anônimos surgem, intrépidos e solidários,
enquanto autoridades, super-protegidas, visitam
as catástrofes, ocupando recursos e funcionários
públicos para a cena ilustre, acompanhadas pelo
batalhão da mídia.
É
ridícula, perdulária e absolutamente inútil, a
ida de altas autoridades aos locais das
tragédias. Muitas vezes, o aparato que cerca a
autoridade, em sua visita, falta às vítimas da
catástrofe.
Convém,
em meio a tanto desatino, separar os desastres
naturais dos causados pelos erros e falhas
humanas. Em São Luiz do Paraitinga (SP), as
águas surgiram imprevistas, destruindo
patrimônios seculares, enquanto em Angra dos
Reis era previsível o desastre, apesar das
concordâncias oficiais, por deferimento ou
omissão, para com as obras civis ao pé do morro
ou em sua encosta.
Passada
a emoção, e retirados os entulhos, todos os
conselhos e constatações técnicas voltam ao
arquivo dos assuntos inconvenientes e promessas
de ocasião, e retomamos a construção diária de
novos desastres.
É
incrível e até criminosa a desfaçatez com que os
poderes públicos tornam meros e burocráticos
trâmites as análises prévias e acompanhamento de
obras. As omissões atingem a máquina do Estado,
que consegue ser gigantesco sem atentar ao fato
de que os cargos e funções, muitas, persistem
supridas e não desempenhadas.
Recentemente,
estruturas de sustentação do Rodoanel ruíram
perigosamente, sem que fossem constatados, via
acompanhamento e fiscalização preventivas, os
erros cometidos na construção civil. Uma
apostila foi distribuída a alunos de todo o
estado, sem que funcionário algum percebesse o
mapa com dois Paraguais e outros absurdos
geográficos.
As
trapalhadas oficiais espalham-se por todo o país
e níveis de governo. A maioria delas não vai
além do prejuízo aos cofres públicos e incômodos
à população, mas algumas deixam cicatrizes
profundas em milhares de famílias atingidas. De
que adianta a presença maciça e multipartidária
de brasileiros na reunião ambiental de
Copenhague, se não somos capazes de perceber
construções humanas que desafiam e contraditam a
natureza e normas administrativas, as mais
comezinhas ?
União,
estados e municípios encontram-se doentes,
incapazes de fazer girar com eficiência a
máquina pública. Mandatários, até os honestos e
bem intencionados, não conseguem fazer, da folha
de pagamento, uma relação completa e eficaz de
providências e desempenhos. Até as oposições
deixaram-se contaminar, e vivem discursando para
a história e mídia, sem acompanhar o dia a dia
das licenças, concessões e autorizações que os
governos expedem, e o cotidiano das obras e
serviços públicos.
Lenta
e vigorosamente, o Estado brasileiro tende a ser
um grande palanque eleitoreiro, repleto de
discursos, acordos e enunciados, e pobre em
providências e cautelas do dia a dia. A
natureza, ofendida, está reagindo, mas não é,
seguramente, a única culpada pelas catástrofes
que assolam o país. È uma pena que a natureza
não tenha poder de voto.
pedroinovaes@uol.com.br
O
autor é engenheiro agrônomo e advogado,
aposentado.
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