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Excesso de novelas
Várias são as discussões sobre o
desempenho da televisão e da mídia
em geral junto à população. Talvez o
maior dano sejam os veículos
pertencerem a políticos. Eles abusam
do autoelogio ou de propaganda de
governos de seus parentes e de
amigos. Outra crítica muito forte
seria a forma como são abordados os
valores familiares e sociais na
programação, em especial nas
novelas.
Quando surgem novas tecnologias, há
sempre um período de adaptação e de
cuidados com a utilização. Quando o
rádio apareceu, os pais não deixavam
as crianças ouvirem para evitar
valores perniciosos à formação. Já
no início da televisão, as mulheres
que trabalhavam eram vistas de
caráter duvidoso, fáceis,
praticamente eram vistas como
prostitutas de luxo.
Surgem os benefícios também, mas são
analisados de maneira secundária.
Nos dias atuais isso ocorre com a
internet. Os riscos são muito mais
criticados do que os benefícios
elogiados. Mas todas as tecnologias
se firmam naturalmente e, com o
passar do tempo, o debate se ajusta
entre malefícios e benefícios. Como
toda ferramenta, o problema é a má
utilização.
Dois elementos pautam a televisão,
que são a audiência e, em
conseqüência, o patrocinador, que
gera o rendimento para pagar aos
atores e aos funcionários em geral.
Portanto, se têm muitas novelas em
demasia, e tem, é porque tem público
para todas elas.
Na Rede Globo, havia três novelas:
as das seis, das sete e as das oito
horas; a atual das nove. Depois,
foram acrescidas a Vale a Pena Ver
de Novo e a Malhação; e recentemente
à das onze horas, O Astro. Sempre
permeadas de minisséries, novelas
com duração, que muda apenas a
nomenclatura. E todas as demais
emissoras seguiram a Globo e estão
tentando emplacar as suas.
Há necessidade de se discutir o
motivo do aumento constante de
telespectadores de novela. Pode ser
por falta de alternativas. O público
de novela é maior nas camadas
sociais mais baixas. Talvez por
faltar lazer nas cidades; talvez por
faltar o hábito para a leitura de um
bom livro; talvez pela falta de
locais e de instrutores para a
prática de um esporte. Antes, eram
as mulheres o público de novela,
como as empregadas domésticas eram a
audiência de Sílvio Santos. Homem
era o telespectador oculto, já era
discriminado no seu meio, se
assumisse. Jogo aberto: era
considerado gay. Hoje a
masculinidade pode ser questionada
por outras razões, não pelo fato de
o homem ter aumentado o público
noveleiro. Eles falam abertamente
sobre os próximos capítulos.
Novela aborda situações cotidianas:
filho que não conheciam os pais ou
um deles. Algumas personagens até
“comiam” as mães e irmãs antes da
descoberta; triângulo amoroso não
pode faltar; João que gosta de
Maria, que gosta de José; que ama
João, em segredo. Alguém pagando
injustamente por atos tramados por
outros e um ator sempre com um
passado comprometedor ou
constrangedor. Eis os temas que não
podem faltar em nenhuma novela. Além
de jamais poderem faltar as mil e
umas traições.
Positivamente, existem novelas
temáticas. Elas tratam de
acontecimentos relevantes da
história ou de assuntos polêmicos
trazem grandes benefícios. Uma,
ajudou a encontrar várias crianças
desaparecidas.
Esses temas recorrentes trazem
desfechos idênticos aos da vida
real, não apontam soluções mais
civilizadas. E as novelas chamadas
temáticas ajudam pouco, pelo
reduzido tempo para aprofundar o
debate de fatos históricos ou de
temas complexos.
Mas a deficiência maior está nas
autoridades por não oferecerem
alternativas e na própria sociedade,
que se limita à indignação verbal.
Poderia exigir que, assim com toda
novela tem vários traidores, que
tivesse sempre uma personagem
maníaca por leitura, com menção às
obras e aos autores; que fosse
fissurada por pintura; música; outra
que fosse “Lineu” na ética. Além de
sempre ter um quadro que valorasse a
educação formal. Poderia ser um
idoso se formando; uma criança com
ações sociais em seu bairro.
Com certeza, o Brasil já estaria
muito mais elevado se dois por cento
do horário de novelas tivesse sido
destinado à educação, à cultura, à
ética, à cidadania e à informação.
Todos têm sua cota de
repsonsabilidade por construir uma
sociedade de noveleiros. A própria
televisão por não apresentar
programas educativos, sempre sob o
argumento de que sua função é
somente entreter, as autoridades por
não oferecerem alternativas e,
principalmente, o cidadão por que,
como disse o presidente Lula, por
não despregar a bunda das novelas.
O que foi escrito sobre novela vale
muito mais para os realitys shows.
De fato, sem entrar no mérito do
conteúdo, a Globo caminha para se
tornar um canal exclusivo de novela.
Hoje, o brasileiro pode até viver
sem energia, mas não conseguiria sem
novela.
Pedro Cardoso da Costa –
Interlagos/SP
Bel. Direito |
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