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Carnavais fora de época
João Baptista Herkenhoff
Os “carnavais fora de época” e
outras promoções semelhantes estão a
perturbar o sossego de milhares ou
milhões de pessoas, nas mais
diversas cidades
brasileiras.Respeito a opinião
daqueles que aprovam essa
iniciativa. Compreendo que muitos se
divirtam com esse Carnaval fora do
calendário tradicional.Mas não estou
sozinho na minha oposição. Os
protestos publicados nas colunas de
cartas dos leitores dos jornais
demonstram que muita gente está
sendo incomodada.
No Ceará, manifestando-se sobre os
carnavais fora de época, o advogado
Paulo Maria de Aragão denuncia, como
uma das consequencias dessas festas
exdrúxulas, o rompimento do pacto de
respeito recíproco, que deve
caracterizar uma sociedade
civilizada.
De qualquer forma, o debate é sempre
útil. A divergência ilumina a
análise dos fatos.A meu ver (embora
reconhecendo que possa estar
enganado), os maiores interessados
nessas promoções são os fabricantes
de cerveja e outras bebidas,
beneficiando-se da situação também
os que vivem do comércio de
drogas.No ambiente criado
artificialmente pelos “carnavais
fora de época”, a juventude é
induzida a beber exageradamente, a
embriagar-se, a entregar-se ao
hedonismo irresponsável.O saldo
desses eventos, nas mais diversas
cidades onde se realizam, tem sido
sempre de várias mortes e muitos
feridos.Não se trata de condenar a
alegria, tão benéfica à vida humana.
Não se trata de querer que a
juventude envelheça antes do tempo.
Trata-se de protestar contra a
massificação dos jovens, a
transformação dos jovens em objetos
de consumo.Trata-se também de
defender a cidadania e a
privacidade, a liberdade de ir e
vir, a própria inviolabilidade do
lar contra as agressões absurdas dos
“carnavais fora de época”,
realizados não em locais distantes,
mas dentro das cidades, às vezes até
mesmo em bairros residenciais.O
Carnaval, na época devida, tem toda
uma tradição, é festa do povo, deita
raízes na cultura brasileira. O
Carnaval fora de época é invenção
comercial, simples expediente para
forçar o consumo, sem qualquer noção
de respeito aos direitos da pessoa e
da família e às liberdades
constitucionais. Em toda parte onde
se realiza, esse Carnaval anômalo
prima pelo abuso e pelo completo
desconhecimento de uma máxima
simples e sábia: “meu direito
termina onde começa o direito
alheio”.
João Baptista Herkenhoff é professor
pesquisador da Faculdade Estácio de
Sá do Espírito Santo, palestrante
Brasil afora e escritor. Autor do
livro Filosofia do Direito (Editora
GZ, Rio, 2010). E-mail: jbherkenhoff@uol.com.br
Homepage: www.jbherkenhoff.com.br
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