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CAÇA AOS AMBULANTES
Pedro Israel Novaes
de Almeida
Como
sempre, a aproximação das festas de
fim de ano e o conseqüente
aquecimento do comércio enunciam a
temporada de caça aos camelôs.
A cena
urbana mais notada, em novembro e
dezembro, é o corre-corre de
ambulantes, mestres em desmontar
barracas e juntar mercadorias, ao
primeiro sinal de aproximação do
aparato fiscal e policial dos
governos.
Comerciantes estabelecidos reclamam
da concorrência desleal, livre de
impostos, aluguéis, encargos
trabalhistas e tantos outros ônus
próprios da formalidade. Dizem, por
aí, que alguns, enquanto reclamam,
inauguram filiais, conduzidas como
autênticas barracas de camelôs, tão
informais quanto sonegadoras.
Consumidores, aos milhares, chegam
de todo o país, a maioria para
adquirir produtos e revendê-los, nas
regiões de origem. A informalidade
movimenta bilhões de Reais.
O
comércio informal ambulante passa ao
largo do Código do Consumidor,
principalmente no quesito garantia,
eis que não emite qualquer documento
que comprove a aquisição, o
pagamento e a descrição da
mercadoria. Mesmo assim, atrai
invejável e fiel clientela.
O
atrativo maior, determinante do
sucesso dos ambulantes, é o preço,
escandalosamente menor que o
praticado no comércio formal. Quando
a mercadoria é nacional, a diferença
de preço aponta para a
monstruosidade da carga tributária,
custos da formalidade ou abuso nos
lucros.
A verdade
é que os ambulantes, certos ou
errados, conduziram à diminuição dos
preços praticados pelo comércio
estabelecido, benefício coletivo.
CD´s autênticos, originalmente
ofertados por R$ 50,00 hoje são
encontrados por R$ 25,00. Os
ambulantes incentivaram a busca de
eficiência, na indústria e comércio.
Os
governos tentam atrair os ambulantes
para a formalidade, inclusive
delimitando os espaços urbanos a
serem ocupados. As medidas possuem
alcance restrito, pois a
formalização do trabalhador é bem
mais fácil que a formalização de
suas mercadorias.
Além da
concorrência desleal e sonegação, os
ambulantes que comercializam
produtos contrabandeados,
falsificados, roubados ou não
submetidos a normas sanitárias e de
segurança, prestam grande desserviço
ao país.
Brinquedos e aparelhos eletrônicos
podem ser inseguros, contendo
ingredientes que afetam a saúde de
quem os maneja, e óculos escuros mal
produzidos podem gerar distúrbios
oculares. Até medicamentos inidôneos
podem ser ofertados.
O
comércio informal, principalmente de
mercadorias estrangeiras, castra
empregos e pode inibir a indústria
nacional. A informalidade interna
gera renda e empregos externos.
A busca
de mercadorias de origem ilegal ou
potencialmente danosas à saúde deve
integrar o cotidiano dos governos.
No Brasil, as fiscalizações e
correrias parecem eventos natalinos,
ou ocorrentes quando de datas de
grande consumo popular.
A saúde
pública, o consumidor e a
formalidade merecem mais respeito.
pedroinovaes@uol.com.br
O autor é
engenheiro agrônomo e advogado,
aposentado. |