13/072011
 

 
 
     
 

GERAÇÕES

Pedro Israel Novaes de Almeida

 

            O incremento das comunicações e a longevidade humana tornaram mais intenso o convívio entre diferentes gerações.

            Não é fácil a coexistência entre pessoas criadas e formadas em ambientes de costumes e valores tão diferenciados, com idades que chegam à diferença de oitenta anos.

            Um pai, nascido nos anos cinqüenta, fica inconsolável quando a filha telefona, avisando que vai pernoitar na casa do namorado, cujos pais viajaram. Se o telefonema fosse do filho, ficaria orgulhoso.

            Os de média ou adiantada idade sentem calafrios perante piercings, e têm a incômoda sensação de marginalidade, perante qualquer tatuagem. Civilizadamente, não manifestam qualquer estranheza, só comentada no ambiente familiar.

            Aos idosos é estranho o fato de pessoas passarem horas e horas perante o computador, conversando à distância ou por códigos indecifráveis. Também lhes parece estranho o silêncio familiar, durante as novelas ou noticiários da TV.

            Os idosos, que passaram a infância e juventude jantando, sentem saudades das sopas, agora substituídas por lanches. Também estranham as praças, hoje meros atalhos, sem crianças, rodas de conversa e coreto.

            Aos jovens, a vida de antigamente mais parecia uma aventura, sem qualquer protetor solar, alimentos sem data de validade e tênis sem solados especiais. A TV era um festival de chuviscos e chiados, e o rádio repercutia raios e trovões.

            A inovação que os veteranos aplaudem é a emancipação feminina, embora não vejam com bons olhos o marido cozinhando e lavando roupas, enquanto a mulher provê o orçamento familiar.

            Os idosos parecem acreditar na enganosa sensação de que suas gerações liam mais, e haviam mais poetas e literatos. Na verdade, as novas gerações são mais informadas e cultas, e, em outro estilo, igualmente românticas.

            Pouco mudou, ao longo dos anos, o desinteresse pela política e a aversão aos políticos. Gerações intermediárias, hoje na faixa dos 50 aos 70 anos, experimentaram momentos de grandes manifestações populares, quando das lutas pela liberdade de expressão e democracia.

            As novas gerações contam com as redes sociais, que rompem quaisquer barreiras geográficas ou políticas, eliminando censuras e criando um poder que ultrapassa mídias e governos, movendo massas e distribuindo idéias. As gerações anteriores padeciam de comunicações lentas, truncadas, e, não raro, pouco ilustradas.

            As inovações tecnológicas não geram conflitos entre gerações. Os pontos de discórdia, que dificultam o entendimento, resultam de desrespeitos a valores culturais e morais, que resistem ao passar do tempo e aos progressos sociais materiais.

            As gerações de outrora não conseguem conviver com o avanço das drogas, a banalização do sexo, a violência que restringe a liberdade de ir e vir, a superficialidade dos relacionamentos, a selvageria das concorrências e a supremacia das minorias. Estão certas.    

                                                                                                  pedroinovaes@uol.com.br

            O autor é engenheiro agrônomo e advogado, aposentado.