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| 15 / 11 / 2011 |
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Direitos Humanos: um núcleo
comum a preservar
É de todo
conveniente que sejam colocadas
em pauta nas faculdades,
escolas, igrejas, jornais, rádio
e televisão, nos espaços
públicos em geral, as questões
relacionadas com os Direitos
Humanos. Muitas vezes os espaços
que deveriam abrigar o debate
honesto são utilizados para
transmitir versões falsificadas.
Os obstáculos não nos devem
desanimar.
Através deste
artigo pretendo contribuir para
a reflexão e o debate.
Parece-me
rigoroso concluir pela
existência de um “núcleo comum
universal” de Direitos Humanos.
Este “núcleo
comum”, no campo dos Direitos
Humanos, corresponde aos
“universais linguísticos”
descobertos por Chomsky, na
Linguística.
Sem prejuízo da
existência desse “núcleo comum”,
há uma “percepção diferenciada”
dos Direitos Humanos nos vários
quadrantes da Terra.
Os Direitos
Humanos são concebidos de uma
forma peculiar pelos povos
indígenas e pelos povos
africanos, vítimas seculares da
opressão. Também é bem diversa
a percepção dos Direitos Humanos
no mundo islâmico, mundo
belíssimo que é portador de uma
cultura peculiar. Não há
qualquer incompatibilidade entre
Islamismo e Direitos Humanos,
como uma visão imperialista de
mundo pretende fazer crer.
Pelos povos
indígenas, pelos povos
africanos, pelos povos
muçulmanos os Direitos Humanos
não são percebidos da mesma
forma como são percebidos pelos
povos europeus.
Também variáveis
como “classe, cultura,
nacionalidade ou lugar social”
influenciam na maneira de
perceber os Direitos Humanos.
O grito por
Justiça, Liberdade, Dignidade
Humana, Solidariedade
expressa-se através das mais
diversas línguas faladas no
mundo: Tous les êtres humains
naissent libres et égaux en
dignité et en droit. (Francês).
Toda persona tiene todos los
derechos y libertades, sin
distinción alguna de raza, color,
sexo, idioma, religión, opinión
política o de cualquier otra
índole. (Espanhol). Ogni
individuo ha diritto alla vita,
alla libertà, alla sicurezza
della própria persona.
(Italiano). No one shall be held
in slavery or servitude.
(Inglês). La família és
l’element fonamental de la
societat. (Catalão, língua do
povo catalão). Muchi tehemet
tiwelit, gan inemit mu ixtiya
tuamaw. (Pipil, língua falada em
El Savador. A tradução do texto
citado é esta: Todo ser humano
tem o direito de ser, em todos
os lugares, reconhecido como
pessoa).
Essa
multiplicidade de línguas
enunciando os Direitos Humanos
vem em socorro da hipótese de um
dialético antagonismo de
divergência e convergência, ou
seja, há um núcleo comum de
Direitos Humanos e, ao mesmo
tempo, há uma percepção
diferenciada dos Direitos
Humanos, no seio dos vários
povos e das várias culturas.
Também as vozes
dos poetas ajudam na compreensão
dos Direitos Humanos, como ideal
que pulsa nas diversas
latitudes: A pena que com causa
se padece, a causa tira o
sentimento dela, mas muito dói a
que se não merece. (Camões,
poeta português, num grito de
revolta contra a pena injusta).
Vossos filhos não são vossos
filhos. Vêm através de vós, mas
não de vós. E embora vivam
convosco não vos pertencem.
Podeis outorgar-lhes vosso amor,
mas não vossos pensamentos,
porque eles têm seus próprios
pensamentos. (Gibran Khalil
Gibran, poeta libanês, exaltando
a grandeza da individualidade).
A linguagem da
poesia é de tal forma universal
que também o poeta brasileiro
abre as janelas do mundo: Eu sou
aquele que disse – os homens
serão unidos se a terra deles
nascida for pouso a qualquer
cansaço. (Mário de Andrade, num
hino à solidariedade). Auriverde
pendão de minha terra, que a
brisa do Brasil beija e balança,
antes te houvessem roto na
batalha, que servires a um povo
de mortalha. (Castro Alves,
mostrando sua indignação diante
da bandeira brasileira hasteada
num navio negreiro). Se
discordas de mim, tu me
enriqueces, se és sincero, e
buscas a verdade, e tentas
encontrá-la como podes. (Hélder
Câmara, bispo, profeta, poeta,
exaltando o direito à
discordância). Folha, mas viva
na árvore, fazendo parte do
verde. Não a folha solta,
bailando no vento a canção da
agonia. (Thiago de Mello,
enaltecendo o direito de
associação e a luta coletiva).
No tributo aos
Direitos Humanos não esteve
silente a voz dos poetas
capixaba: Seja a corte civil ou
marcial, que mão lavra a
sentença quando o juiz pressente
sobre a toga forte espada
suspensa? (Geir Campos,
denunciando o desrespeito à
independência da Justiça, pela
força da espada). Esta
sensibilidade, que é uma antena
delicadíssima, captando todas as
dores do mundo, e que me fará
morrer de dores que não são
minhas. (Newton Braga,
celebrando a fraternidade).
Da mesma forma
que acontece, com relação às
línguas, a presença da poesia,
na proclamação dos Direitos
Humanos, tem o sentido simbólico
da busca de horizontes acima de
fronteiras.
Os Direitos
Humanos, na sua linha central,
desenharam-se como uma
construção da Humanidade, de uma
imensa multiplicidade de
culturas.
Como não são
estáticos, a elaboração deles
continua no fluxo da História.
Consolidar a
ideia de Direitos Humanos
fundamentais é uma exigência
para que a Humanidade possa
sobreviver, sem se desnaturar.
Temos que estar
atentos à pregação de uma
cultura anti-humana, ao lado da
cultura humana pela qual
lutamos.
Às vezes essa
cultura anti-humana estabelece
uma tal ruptura de diálogo e
compreensão que mundos
antagônicos se organizam. A
cultura anti-humana tem seus
códigos próprios, estabelece um
isolamento.
Não será pela
imposição que defenderemos
princípios fundamentais de
Humanismo e de Direito. O
caminho será o diálogo, o
intercâmbio de ideias, a
discussão franca. Quem tem
acesso a informações que as
forças dominantes subtraem ao
povo, ou transmitem às multidões
de forma deturpada, tem o dever
de propagar as informações
corretas. Não podemos permitir
que a propaganda silencie a
verdade.
É um grande
caminho, mas caminhar é preciso,
construir é preciso, sonhar é
preciso.
João Baptista
Herkenhoff é Juiz de Direito
(aposentado) e Professor
pesquisador da Faculdade Estácio
do Sá do Espírito Santo (em
atividade). Autor, dentre outros
livros, de Curso de Direitos
humanos (livro que acaba de ser
publicado pela Editora
Santuário, Aparecida, SP).
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