16/09/2011
 

 
 
     

 

CAMPO E CIDADE

Pedro Israel Novaes de Almeida

 

            A saúva e o êxodo rural já foram considerados prenúncios do apocalipse.

            Atualmente, a saúva continua com o habitual apetite, mas sob domínio humano, enquanto o êxodo rural passou a ser visto como uma conseqüência natural do processo de desenvolvimento que experimentamos.

            Até os anos 60, havia mais brasileiros no campo que na cidade, e hoje a imensa maioria habita a zona urbana. A agricultura foi modernizada, e as cidades incrementaram os setores industriais e de serviços, gerando empregos.

            A rusticidade, baixos salários e falta de oportunidades de ascensão social afugentavam os moradores do campo, atraídos pelo crescimento das cidades, a partir dos anos 70. Como sempre, as mulheres foram espertas, e são minoria, na população rural.

            Muitos combateram a mecanização rural, confundindo a valorização do trabalho humano com desemprego. Inocentes, julgavam possível matar a fome do mundo alternando botinas e enxadas.

            Hoje, rural e urbano são grupamentos pouco diferenciados, pois são muitos os habitantes do campo que não trabalham na agricultura ou pecuária. Por outro lado, são também muitos os que habitam as cidades, trabalhando no campo.

            As propriedades rurais já não constituem colônias, e a maior parte dos assalariados reside na cidade, para alegria dos familiares que estudam ou exercem atividades urbanas. A sazonalidade das lides rurais auxilia o pleno emprego.

            Sábia, a natureza reservou à destreza humana uma série de atividades só remotamente robotizáveis, como a poda, colheita e manejo de hortaliças e frutíferas. A agricultura familiar também é beneficiária da mecanização rural.

            Contudo, existem atividades que geram grandes vazios populacionais, como a produção de cana-de-açúcar, grãos e madeira. Quando a paisagem rural assume aspectos de monotonia e deserto humano, há perdas ambientais e sociais. O êxodo é natural, enquanto diminuição, não extermínio.

            O meio rural brasileiro passa por turbulenta transformação, deixando de constituir um centro de convivência, tradições e cultura, para transformar-se em eficiente e econômico gerador de produtos e rendas. Festas e hábitos, outrora tipicamente rurais, já emolduram a paisagem urbana.

            O meio rural já não é necessariamente rústico e isolado, e, a exemplo da área urbana, exige capacitação profissional. Multiplicam-se os cursos técnicos voltados ao campo, e aumentou a valorização social da atividade produtiva.

            Passada a fase selvagem do êxodo rural, as populações alternam idas e vindas, integrando campo e cidade. Produtos agrícolas, pecuários e minerais sustentam a economia, permitindo-nos sobreviver aos solavancos dos capitais e humores internacionais.

            Combatidas no campo, as saúvas formaram colônias em instituições humanas, trocando a coleta de folhas pela ingestão de recursos públicos, urbanos ou rurais.

                                                                                  pedroinovaes@uol.com.br

            O autor é engenheiro agrônomo e advogado, aposentado.