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CAMPO E CIDADE
Pedro Israel Novaes
de Almeida
A saúva e
o êxodo rural já foram considerados
prenúncios do apocalipse.
Atualmente, a saúva continua com o
habitual apetite, mas sob domínio
humano, enquanto o êxodo rural
passou a ser visto como uma
conseqüência natural do processo de
desenvolvimento que experimentamos.
Até os
anos 60, havia mais brasileiros no
campo que na cidade, e hoje a imensa
maioria habita a zona urbana. A
agricultura foi modernizada, e as
cidades incrementaram os setores
industriais e de serviços, gerando
empregos.
A
rusticidade, baixos salários e falta
de oportunidades de ascensão social
afugentavam os moradores do campo,
atraídos pelo crescimento das
cidades, a partir dos anos 70. Como
sempre, as mulheres foram espertas,
e são minoria, na população rural.
Muitos
combateram a mecanização rural,
confundindo a valorização do
trabalho humano com desemprego.
Inocentes, julgavam possível matar a
fome do mundo alternando botinas e
enxadas.
Hoje,
rural e urbano são grupamentos pouco
diferenciados, pois são muitos os
habitantes do campo que não
trabalham na agricultura ou
pecuária. Por outro lado, são também
muitos os que habitam as cidades,
trabalhando no campo.
As
propriedades rurais já não
constituem colônias, e a maior parte
dos assalariados reside na cidade,
para alegria dos familiares que
estudam ou exercem atividades
urbanas. A sazonalidade das lides
rurais auxilia o pleno emprego.
Sábia, a
natureza reservou à destreza humana
uma série de atividades só
remotamente robotizáveis, como a
poda, colheita e manejo de
hortaliças e frutíferas. A
agricultura familiar também é
beneficiária da mecanização rural.
Contudo,
existem atividades que geram grandes
vazios populacionais, como a
produção de cana-de-açúcar, grãos e
madeira. Quando a paisagem rural
assume aspectos de monotonia e
deserto humano, há perdas ambientais
e sociais. O êxodo é natural,
enquanto diminuição, não extermínio.
O meio
rural brasileiro passa por
turbulenta transformação, deixando
de constituir um centro de
convivência, tradições e cultura,
para transformar-se em eficiente e
econômico gerador de produtos e
rendas. Festas e hábitos, outrora
tipicamente rurais, já emolduram a
paisagem urbana.
O meio
rural já não é necessariamente
rústico e isolado, e, a exemplo da
área urbana, exige capacitação
profissional. Multiplicam-se os
cursos técnicos voltados ao campo, e
aumentou a valorização social da
atividade produtiva.
Passada a
fase selvagem do êxodo rural, as
populações alternam idas e vindas,
integrando campo e cidade. Produtos
agrícolas, pecuários e minerais
sustentam a economia, permitindo-nos
sobreviver aos solavancos dos
capitais e humores internacionais.
Combatidas no campo, as saúvas
formaram colônias em instituições
humanas, trocando a coleta de folhas
pela ingestão de recursos públicos,
urbanos ou rurais.
pedroinovaes@uol.com.br
O autor é
engenheiro agrônomo e advogado,
aposentado. |