Perguntou-me um
jovem: “Por que é tão constante
a presença de Cachoeiro em tudo
que o senhor escreve,
professor?” Percebi a
honestidade da indagação e
respondi: meu jovem, Cachoeiro
está na alma.
Talvez eu exagere
um pouco nisto de celebrar a
Princesa do Sul. Se exagero,
peço perdão.
O Doutor
Guilherme Costa Travassos,
advogado de São Paulo que muito
me honra por ser leitor
frequente dos meus textos,
observou, num recente e-mail, a
propósito deste bairrismo
exagerado que me contagia:
“Em nossa terra,
existem Cachoeiros em grande
número.”
De certa forma eu
vi, nessa observação, uma
delicada advertência. Por este
motivo, concordei com o adendo
do advogado paulista e disse em
resposta:
“Há sim
muitos Cachoeiros pelo Brasil
afora. E é preciso que isto
aconteça porque ninguém ama a
Grande Pátria, se não amar
primeiro sua Pequena Pátria, seu
torrão natal.”
Todo este
preâmbulo tem a finalidade de
justificar que mais uma vez eu
fale de Cachoeiro de Itapemirim
neste artigo.
Mas desta feita
há uma razão especial: junho é
tempo de Cachoeiro porque em
junho celebramos o Dia de
Cachoeiro. Na mesma frase
escrevi duas vezes a palavra
Cachoeiro. Não seria razoável
que, no final do período, eu
escrevesse Dia da Cidade?
Bem. Razoável
seria, mas não seria exatamente
a mesma coisa. A expressão Dia
da Cidade é absolutamente
apropriada. Mas quando se trata
daquele torrão que se localiza
no sul do Espírito Santo, Dia da
Cidade é expressão de pouca
força. Tem de ser Dia de
Cachoeiro mesmo.
Neste ano em que
celebramos o centenário de
Newton Braga, o criador do Dia
de Cachoeiro, Ana Graça Braga de
Abreu, irmã do Newton, será a
Cachoeirense Ausente Número Um.
É uma escolha merecida, justa,
inspiradíssima. Eu diria mesmo:
uma escolha poética!
No ano 2000
também uma mulher foi consagrada
para a homenagem máxima da
cidade – a advogada Moema
Baptista.
Quando falo em
Cachoeiro, vou para as nuvens,
eu me perco, esqueço até o
vernáculo oficial e rememoro
expressões que ouvi no convívio
com o povo humilde: Oncotô?
Nossinhora! Sinto até dôdistongo.
Fico doidimai.
E, de repente, se
fico a relembrar a infância, até
a lingua do P volta à mente:
Cachoeiro é isso.
Cachoeiro revira a cabeça.
Mas para não
ficar apenas no “assunto
Cachoeiro”, vou aproveitar o
gancho do que foi dito acima
para expressar minha opinião
sobre a chamada linguagem
popular, em suposta oposição à
linguagem culta.
A linguagem
popular é absolutamente legítima
e respeitável. É importantíssimo
preservar a língua culta.
Reverenciar Machado de Assis.
Ensinar gramática nas escolas.
Cuidar da grafia. Não esquecer a
regência. Praticar a
concordância verbal. Mas não
existe oposição entre a língua
culta e o falar do povo. O povo
expressa, através da palavra,
seus sentimentos, dores, visão
do mundo. Os falares regionais,
por exemplo, testemunham a
grandeza do Brasil. O modo como
se exprimem as pessoas comuns, o
que dizem as pessoas simples –
isso merece palmas de pé.
João Baptista
Herkenhoff é professor
pesquisador da Faculdade Estácio
de Sá de Vila Velha (ES),
conferencista e escritor. Autor
de: Dilemas de um juiz – a
aventura obrigatória (Editora
GZ, Rio). E- mail:
jbherkenhoff@uol.com.br
Homepage:
www.jbherkenhoff.com.br
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