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Talvez já tenham escrito tudo
sobre este episódio, mas como no Direito, cada um
escreve a mesma coisa com a sua própria forma peculiar.
Nos festejos de fim de ano saiu uma gravação na internet
de Boris Casoy debochando de forma horripilante de dois
garis, simplesmente por que os rapazes faziam
felicitações de boas-vindas de ano novo. Falou que “dois
garis do alto de suas vassouras...a camada mais
baixa...” A partir daí, como é comum no Brasil em todas
as áreas, travou-se o debate acerca do superficial, do
nada a ver com o fato em si.
Os prós Boris argumentam que todo mundo faz o mesmo. A
mais destacada foi sua colega Barbara Gancia, no jornal
Folha de São Paulo, de 8 de janeiro, pág. C2. Até o
título foi de uma infelicidade e espanto ímpar: Sirvam a
cabeça do Boris com batatas! Os contrários despencam até
a sugestões grosseiras e de incitação a atos criminosos.
Como no Direito, fiquemos com a posição mista. O pedido
de desculpa de Boris já veio errado, eivado do vício
brasileiro de culpar o meio e não o fato. Desculpou-se
culpando o som ter ficado aberto. Foi um erro, mas
deixar o som aberto, necessariamente, não força ninguém
a falar bobagem. Com a experiência que ele tem nos meios
de comunicação, menos ainda.
Defender o Boris Casoy, como fez a Barbara Gancia, sob o
argumento de linchamento público torna-se mais grave do
que o próprio deboche do apresentador. Isso porquê,
implicitamente, defende-se que se aceite escárnio contra
pessoas e funções. Isso, sim, não é tolerado. E o grave
está aí. Boris não brincou de uma situação, que já não
seria tão bem, por se tratar efetivamente de pessoas
mais humildes. Ele simplesmente debochou de uma
profissão, de uma posição social. Não levou em conta que
importa é se os garis são pessoas dignas.
Para compreensão dos incautos. Ninguém poderia ter
dúvida na escolha se colocasse para escolher entre um
gari honesto felicitando a todos na televisão de Boris
ou um governador roubando o dinheiro do povo, inclusive
de garis, publicamente.
Mas o fecho bem à brasileira veio depois. O técnico do
som foi o demitido. Essa pena deveria ser revertida,
mesmo que se fosse ao custo de um boicote nacional à
rede Bandeirantes de Televisão. Medida drástica, mas
necessária. O próprio Boris Casoy deveria se redimir um
pouco e exigir a recontratação do rapaz, cujo erro foi
técnico, e não de conduta ética, como o do apresentador.
Já quanto ao artigo da Barbara Gancia, seria bom
ressaltar que a sociedade toda pode formular suas
brincadeiras em particular, mas se rebela quando se
trata de deboche em rede nacional. Ainda bem!
Pedro Cardoso da Costa – Interlagos-SP
Bel. Direito |