Reencontrar a
infância é descobrir o menino
que vive dentro de nós. Esse
reencontro exige um
despojamento. Libertar-se de
amarras.
Grilhões nos
prendem: agenda, compromissos de
mil espécies, coisas a comprar,
projetos de “ter”. Ter cada vez
mais, como se a vida fosse uma
conta-corrente. Mais importante
é “ser”: ser falho, ser
autêntico, ser pessoa, ser
feliz.
Fernando Sabino e
Rubem Braga foram sócios numa
editora que fundaram e
afundaram. Já pelo nome
escolhido para a casa – Editora
Sabiá, podemos concluir que o
projeto era mais poético do que
econômico. O sabiá é uma ave
especialmente amada pelos
poetas: "minha terra tem
palmeiras onde canta o sabiá -
as aves que aqui gorjeiam não
gorjeiam como lá" (Gonçalves
Dias); "vou voltar para o meu
lugar - e é lá - que eu hei de
ouvir cantar - uma sabiá" (Chico
Buarque).
Fernando Sabino,
bem mineiro, estava preocupado
com compromissos que se
acumulavam sem as competentes
providências. Rubem Braga
desanuviou a mente do
companheiro de aventura
editorial: “Desde quando temos
de resolver todas as coisas,
Fernando”?
O mundo precisa
mais de sonho do que de
pragmatismo. Esse povo que faz
guerra, que joga bomba em
cidades matando populações
civis, não pertence ao grupo que
sonha. Esse povo justifica sua
conduta em argumentos
pragmáticos.
Estando a
caminhar pelas estradas da
sétima década, ando à procura da
infância que deixei em Cachoeiro
de Itapemirim. Convido os
leitores que tenham mais de
trinta anos a fazer esse mesmo
caminho de volta. No itinerário
de regresso ao passado, todos
nos convenceremos, tenho
certeza, de que foi essencial, e
não meramente acidental, o
conselho de Jesus Cristo para
que fôssemos como as
criancinhas.
Um dos
expedientes que estou usando
para reencontrar a infância
consiste em estudar alemão.
Tenho uma professora particular
– Gisele Servare, que me ensina
com competência, paciência,
didática. As aulas de alemão
constituem para mim uma volta à
infância. Lembro-me de meu Pai,
cuja língua materna era o alemão
e que, até morrer, falou
português com sotaque germânico.
Lembro-me dos acordes e da letra
da canção “Noite Feliz”, que eu
cantava em alemão e que
alegrava, quer em português,
quer em alemão, os Natais em
nossa casa.
Escrevo esta
página olhando para o mar, na
Praia da Costa, uma das mais
belas do Espírito Santo.
Contemplo o mar e novamente
volto à infância, recordando os
Verões passados em Marataízes,
praia localizada no sul
capixaba.
Referências de
tempo e de espaço são
referências existenciais. Nós
perdemos o leme da vida quando
nos desgarramos do espaço e
apagamos as marcas do tempo. Nós
nos integramos psicologicamente
quando o tempo volta à memória e
o espaço da infância revive em
nossa retina.
João Baptista
Herkenhoff, 75 anos, é Professor
da Faculdade Estácio de Sá do
Espírito Santo, palestrante e
escritor. Acaba de publicar
Curso de Direitos Humanos
(Editora Santuário, Aparecida,
SP). E-mail:
jbherkenhoff@uol.com.br
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