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21/01/2010
 
 

ROTINAS URBANAS

 

 A vida pulsa rotineira, nas pequenas cidades brasileiras. 
 

      Os relógios podem ser aferidos pelo vai-e-vem dos pedreiros, que chegam ao serviço às sete da manhã e saem às cinco da tarde, cansados. Muitos carregam rádios portáteis, que amenizam o trabalho e irritam a vizinhança. 
 

     Ao fim dos expedientes, os que ganham menos correm para a casa ou boteco, para descansar, e os que recebem melhores salários andam, para cansar. A rota preferencial dos que andam é o contorno dos cemitérios, pois caminhar por outra via pode ser sinal de paquera na vizinhança ou crise financeira. 
 

     Com a modernização das padarias, ricos e remediados podem beber à  vontade, após o expediente, sem serem comentados como pinguços. Ali, são concluídos grandes negócios, feitos os acordos políticos e revisitadas as fofocas locais.   
 

     As pequenas cidades aderiram ao hábito do lanche quebra-galho da tarde, substituto das sopas, pratos e talheres de outrora. Dizem as más línguas que o banimento da janta é a prova mais evidente da emancipação feminina. 
 

     Constitui ofensa grave dizer, aos habitantes das pequenas cidades, que o sonho de todos é conhecer um elevador, semáforo e escada rolante. Respondem, indignados, que já progrediram, pois no ano passado ocorreram dois acidentes de trânsito, um assalto, discussões a respeito do novo prédio da Câmara, apreensão de crack, formação de filas no hospital da cidade vizinha, fundação de vinte ONGs para tratar do meio ambiente e superlotação da cadeia pública, com bandidos oriundos de todo o estado. Dizem, com orgulho, que a Sabesp acabou concordando com a continuidade dos serviços, e foram criadas mais dez secretarias municipais. 
 

     Nas pequenas cidades, o grande empregador ainda é a prefeitura, que paga pouco por ter muitos.  Existem agricultores que geram centenas de empregos, e são pouco valorizados, e existem forasteiros que prometem a geração de vinte empregos urbanos, e são brindados com terreno, isenção de impostos, linha de ônibus, água, luz, telefone e acesso sem buracos. 
 

     Nas pequenas cidades, as praças são freqüentadas, e não constituem meras passagens. Ali, idosos e crianças permanecem em segurança, e o ambiente é de convivência e camaradagem.  
 

     O ambiente é mais solidário, e todos conhecem a história de todos, com seus defeitos e virtudes. Muitas vezes, votam conhecendo os defeitos e ignorando as virtudes, motivo de tantas carências e desperdícios.  
 

     Nas pequenas cidades, professores são mais valorizados, os médicos endeusados e a tradição cultuada. Faltam empregos e aumenta a porcentagem de idosos e crianças. 
 

     As pequenas cidades são destruídas quando da injusta implantação de algum presídio ou transformadas em rotas de fuga, por algum pedágio extorsivo. Não têm merecido, dos governos, o respeito que merecem. 
 

                                         pedroinovaes@uol.com.br 
 

     O autor é engenheiro agrônomo e advogado, aposentado.  


 
   
     
 


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