A vida pulsa rotineira, nas pequenas cidades
brasileiras.
Os relógios podem ser aferidos pelo
vai-e-vem dos pedreiros, que chegam ao
serviço às sete da manhã e saem às cinco da
tarde, cansados. Muitos carregam rádios
portáteis, que amenizam o trabalho e irritam a
vizinhança.
Ao fim dos expedientes, os que ganham menos
correm para a casa ou boteco, para descansar, e
os que recebem melhores salários andam, para
cansar. A rota preferencial dos que andam é o
contorno dos cemitérios, pois caminhar por outra
via pode ser sinal de paquera na vizinhança ou
crise financeira.
Com a modernização das padarias, ricos e
remediados podem beber à vontade, após o
expediente, sem serem comentados como pinguços.
Ali, são concluídos grandes negócios, feitos os
acordos políticos e revisitadas as fofocas
locais.
As pequenas cidades aderiram ao hábito do
lanche quebra-galho da tarde, substituto das
sopas, pratos e talheres de outrora. Dizem as
más línguas que o banimento da janta é a prova
mais evidente da emancipação feminina.
Constitui ofensa grave dizer, aos
habitantes das pequenas cidades, que o sonho de
todos é conhecer um elevador, semáforo e escada
rolante. Respondem, indignados, que
já progrediram, pois no ano passado ocorreram
dois acidentes de trânsito, um assalto,
discussões a respeito do novo prédio da Câmara,
apreensão de crack, formação de filas no
hospital da cidade vizinha, fundação de vinte
ONGs para tratar do meio ambiente e superlotação
da cadeia pública, com bandidos oriundos de todo
o estado. Dizem, com orgulho, que a Sabesp
acabou concordando com a continuidade dos
serviços, e foram criadas mais dez secretarias
municipais.
Nas pequenas cidades, o grande empregador
ainda é a prefeitura, que paga pouco por ter
muitos. Existem agricultores que geram centenas
de empregos, e são pouco valorizados, e existem
forasteiros que prometem a geração de vinte
empregos urbanos, e são brindados com terreno,
isenção de impostos, linha de ônibus, água, luz,
telefone e acesso sem buracos.
Nas pequenas cidades, as praças são
freqüentadas, e não constituem meras passagens.
Ali, idosos e crianças permanecem em segurança,
e o ambiente é de convivência e camaradagem.
O ambiente é mais solidário, e todos
conhecem a história de todos, com seus defeitos
e virtudes. Muitas vezes, votam conhecendo os
defeitos e ignorando as virtudes, motivo de
tantas carências e desperdícios.
Nas pequenas cidades, professores são mais
valorizados, os médicos endeusados e a tradição
cultuada. Faltam empregos e aumenta a
porcentagem de idosos e crianças.
As pequenas cidades são destruídas quando
da injusta implantação de algum presídio ou
transformadas em rotas de fuga, por algum
pedágio extorsivo. Não têm merecido, dos
governos, o respeito que merecem.