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Convivência dos diferentes
João Baptista Herkenhoff
Diferenças de concepções religiosas, ideologias,
raças não devem impedir a fraterna convivência
humana.
Cada um
pode ter sua Fé, sua visão política, sua receita
para os problemas sociais, sua maneira de decifrar
os mistérios da vida, sem que essas divergências
impeçam o diálogo e a busca de eventuais
identidades.
No
âmbito da Igreja Católica, tenho especial admiração
pelo Papa João XXIII, justamente porque esse Papa
sacudiu os alicerces de Roma, com sua generosa
abertura às mais diversas correntes de pensamento,
às mais diversas crenças e filosofias.
Acho
que a Humanidade avança se, no campo da Fé,
prevalece uma visão ecumênica e se, no campo da ação
concreta, unem-se todos aqueles que desejam um mundo
mais justo, mais igualitário, mais humano.
Daí
que, no centenário de Chico Xavier, eu, um católico,
celebrei a herança que ele nos deixou e juntei minha
palavra às milhares ou milhões de palavras que foram
expressadas naquele momento de saudade. Falei com
muita tranquilidade, em celebrações ecumênicas e em
celebrações espíritas, ao ensejo de tão expressivo
centenário.
Vamos
agora falar de Cuba. Reconheça-se a grandeza desse
pais, pequeno no tamanho, porém imenso na dignidade.
Respeitem-se as opções adotadas naquela ilha. Tenha
nossa reprovação tudo que se fez no passado, ou que
se faça hoje, para dificultar os caminhos da
Revolução Cubana. Enquanto Fidel Castro ainda é
vivo, proclame-se a injustiça das proscrições, a
falsidade dos argumentos que pretenderam negar o
óbvio, qual seja, por exemplo, o sucesso do regime
cubano nas áreas da saúde e da educação. Que coisa
linda este troféu que, com orgulho, Cuba exibe: "A
cada ano, oitenta mil crianças morrem vítimas de
doenças evitáveis. Nenhuma delas é cubana. Cada
noite duzentos milhões de crianças dormirão nas ruas
do mundo. Nenhuma é cubana".
Cuba mantém médicos e
professores atuando em mais de cem países, incluído
o Brasil. Promove, em toda a América Latina, a
Operação Milagros, para curar gratuitamente
enfermidades dos olhos, e a campanha de
alfabetização Yo sí puedo (Sim, eu sou capaz), com
resultados auspiciosos.
O bloqueio norte-americano
sofrido por Cuba durante décadas é inaceitável. A
base militar de Guantánamo não é apenas uma agressão
à soberania cubana. É um acinte ao mundo.
Reflitamos agora sobre
árabes e judeus. Descendentes de árabes e
descendentes de judeus no Brasil travam a pugna do
bem. Desdobram-se na prestação de serviços à
comunidade para demonstrar, cada um do seu lado, a
capacidade que têm de construir obras beneméritas.
Nesse esforço extraordinário demonstram também a
gratidão que alimentam, no fundo da alma, pela
acolhida que eles, seus pais e seus avós tiveram no
Brasil.
Em São
Paulo, essa sadia rivalidade efetiva-se através da
edificação de duas instituições primorosas: o
Hospital Sírio-Libanês e o Hospital Albert Einstein.
Quisera
que, em plano mundial, árabes e judeus travassem uma
competição para o bem, em vez de ficar jogando
bombas uns nos outros.
Tenho
simpatia pelo Estado de Israel e tenho simpatia pelo
Estado da Palestina.
Não
consigo compreender porque não possam conviver, lado
a lado, o Estado judeu e o Estado palestino.
Da
mesma forma que os judeus têm direito a um
território, o mesmo direito assiste a palestinos e a
todas as nações. Nenhum povo da Terra pode ser
privado de chão.
Não é
de forma alguma impossível que se efetive esse
direito. Através dos canais diplomáticos, através da
ONU, através da ação dos que lutam pela Justiça e
pela Paz, judeus e palestinos podem conviver, no
respeito recíproco, trocando o fuzil pelo abraço,
trocando a exclusão pela partilha, trocando a
incompreensão pela tolerância.
É nesse
sentido que deve atuar a diplomacia brasileira.
Se
dependesse da colônia árabe brasileira e da colônia
judaica brasileira não haveria guerra no Oriente
Médio.
João
Baptista Herkenhoff é professor pesquisador da
Faculdade Estácio de Sá de Vila Velha (ES) e
palestrante Brasil afora. Autor do livro Filosofia
do Direito (Editora GZ, Rio, 2010).
E-mail: jbherkenhoff@uol.com.br
Homepage: www.jbherkenhoff.com.br |