Da mesma forma
que proclamou a Declaração
Universal dos Direitos Humanos e
a Declaração Universal dos
Direitos da Criança, a ONU
também proclamou a Declaração
Universal dos Direitos do Idoso.
É um documento da maior
importância, não tão conhecido
quanto merece ser. Nele se
afirma que o idoso tem direito
de continuar a viver em sua
própria casa, cidade e ambiente
social. Tem direito de decidir
que tipo de assistência prefere.
Ainda a Carta de Direitos dos
Idosos determina que cabe ao
Governo o dever de assegurar a
eles uma renda adequada à
sobrevivência digna. Concordo
com tudo isto, mas acho que se
omitiu a proclamação de um dos
direitos do idoso: o direito à
saudade. No elenco da Declaração
de Direitos das Pessoas de
Terceira Idade penso que deveria
ter sido contemplado
expressamente o saudosismo como
direito fundamental.
Nestes tempos em
que vivo os altos e baixos da
Terceira Idade, fui surpreendido
por um sentimento intenso de
saudosismo.
A primeira
saudade que me acudiu foi a
saudade das cartas.
Sou do tempo das
cartas por via postal, que
carregavam um certo mistério.
Aderi à internet,
aos e-mails, pela praticidade
deste tipo de comunicação, mas
tenho saudade das cartas de
antigamente.
Os e-mails também
podem ter muita força de
comunicação, mas as cartas
tinham um sabor especial.
A primeira beleza
das cartas é que dependiam da
entrega e o carteiro era muitas
vezes esperado com ansiedade e
alegria.
Não foi à toa que
a alma de Pablo Neruda atingiu
culminâncias em “O Carteiro e o
Poeta”. Numa perdida ilha do
Mediterrâneo, um carteiro recebe
a ajuda do poeta Pablo Neruda
para, através da Poesia,
conquistar o amor de Beatrice,
sua eleita. O carteiro, que era
o mediador da correspondência do
Poeta, aprende, aos poucos, a
traduzir em palavras seus
sentimentos pela amada. Em troca,
Mário, o carteiro, foi o
interlocutor do Poeta, mostrando-se
capaz de ouvir suas lembranças
do Chile e compreender as dores
do exilado.
Guardo todas as
cartas que recebi de minha
mulher, quando éramos namorados.
Como ela também
guardou as que mandei, temos em
nosso arquivo todas as cartas
que trocamos.
Hoje estou
vivendo a segunda metade da
década dos setenta. Eu a conheci
quando tinha dezessete anos.
Tenho também
saudade do flerte.
Hoje já não se
flerta mais.
Flerte, que coisa
linda! Mulher objeto? De forma
alguma... Mulher destinatária...
da admiração, do encantamento,
do discreto desejo.
Suprimiram-se as
etapas do amor. Numa sociedade
capitalista não se perde tempo.
O tempo destinado à poesia, numa
sociedade de consumo, escrava do
ter, desalmada, é tempo perdido.
Mas temos de
reagir. Salvaguardar a Poesia
porque Poesia é Humanismo.
Que mundo triste
seria este mundo se
desaparecessem os poetas.
“Mãos, cabelos,
corpo, músculos, seios,
extraordinário milagre de coisas
suaves e sensíveis, tépidas,
feitas para serem infinitamente
amadas.
Mas o seu belo
braço foi num instante para mim
a própria imagem da vida, e não
o esquecerei depressa.”(Rubem
Braga).
“Pode teu seio
roçar de leve em meu braço,
podes ficar em
silêncio, olhando longe – não me
torturo;
uma grande, uma
total serenidade desceu sobre
nós
na noite leve
leve, clara clara, clara e leve.”
(Newton Braga).
“Trancou-se no
quarto, olhou-se no pequeno
espelho, reparou que o rosto
estava afogueado, considerou
demoradamente o seu corpo,
apalpou com complacência os
seios rijos, cujos bicos ficaram
intumescidos, imaginou, pela
centésima vez, as carícias, os
abraços, os beijos do namorado,
que já não tinha mais o que
esperar”. (Aylton Rocha Bermudes).
“No silêncio da
noite houve um frufru nervoso.
Apenas minha mão
que, abrindo ala entre rendas,
Buscou teu seio
como um pássaro medroso.
Foi tão leve a
carícia que te fiz,
Tão medrosa, tão
cheia de segredos,
Que foi surpreso
que senti, feliz,
Teu corpo
estremecer ao toque dos meus
dedos.” (Athayr Cagnin).
“Sejam-me frutos
os teus seios verdes,
quando a fome do
amor pulsar em mim.
Sejas o vinho em
hálito odoroso,
que me vem antes
e depois do sono”. (Evandro
Moreira).
“Os meus seios
redondos são quais flores
Quais rosas em
botões intumescidos,
Que te causam o
desejo de sabores,
Alertando-me os
múltiplos sentidos.” (Renata
Cordeiro).
“Amar, jovem, é
pouco, e ainda que doam
As palavras nos
lábios, ao dizê-las,
esquece os teus
cantares. Já não soam.
Cantar é mais.
Cantar é um outro alento.
Ar para nada.
Arfar em deus. Um vento.”
(Rainer Maria Rilke, tradução de
Augusto de Campos).
Que chega a
fingir que é dor
E os que lêem o
que escreve,
Não as duas que
ele teve,
Mas só as que
eles não têm.
E assim nas
calhas de roda
Gira, a entreter
a razão,
Que se chama
coração.” (Fernando Pessoa).
João Baptista
Herkenhoff, 75 anos, magistrado
aposentado, é professor,
conferencista e escritor.