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Palco e púlpito contra a opressão
João Baptista
Herkenhoff
Gosto de datas
comemorativas. Vejo um sentido pedagógico nisto de
reservar determinados dias do calendário para
realçar fatos, efemérides, pessoas, profissões.
Meu artigo de hoje está
sendo publicado entre datas bastante significativas
deste mês de março: 19 – Dia Nacional do Artesão –
Dia do Carpinteiro; 21 – Dia Internacional para
Eliminação da Discriminação Racial; 23 – Dia Mundial
do Meteorologista; 24 – Assassinato de D. Oscar
Romero, defensor dos Direitos Humanos, em São
Salvador (1980); 27 – Dia Mundial do Teatro.
Num primeiro momento as
comemorações parecem não conter qualquer ligação
entre si mas, se aprofundarmos o olhar, podemos
identificar nexos.
19 de Março é o Dia do
Artesão e do Carpinteiro porque é o Dia de São José
Operário. Segundo a tradição, São José era um
carpinteiro. Os agricultores do Nordeste brasileiro
acreditam que se chover nesse dia não falta água no
restante do ano.
Se o agricultor nordestino
põe a força de sua Fé na figura de São José Operário
para que a água molhe a terra e a faça fértil, quem
entende cientificamente de chuva e de secas é o
meteorologista, cujo dia solene é comemorado em 23
de março.
21 de março é o Dia
Internacional para Eliminação da Discriminação
Racial. Embora tenha havido avanços em matéria de
igualdade racial, muito esforço terá ainda de ser
feito para que a discriminação desapareça, quer a
declarada, quer a subjacente, de modo que dessa
chaga social não se tenha qualquer resquício. Razão
teve o sábio Einstein que lavrou uma frase
fulminante: “Triste época! É mais fácil
desintegrar um átomo do que vencer um preconceito.”
No dia 24 de março,
reverenciamos a memória de Oscar Romero, Bispo de
São Salvador, que foi assassinado na hora da Missa,
justamente no instante supremo da Elevação da Hóstia
Consagrada. Dom Oscar Romero foi eliminado porque,
em nome da Fé, colocou-se do lado dos oprimidos e
enfrentou os opressores que massacravam o povo de
Deus. O Bispo comprometido com seu ministério ouviu
os clamores do povo, na linha do ensino bíblico:
“Eu vi a aflição do meu povo e
ouvi os seus clamores por causa dos seus opressores.
Sim: eu conheço seus sofrimentos.” (Livro do Êxodo,
111, 7).
Tanto a
discriminação racial, quanto a exploração econômica
dos trabalhadores são injustiças que ferem a
dignidade da pessoa humana, motivo pelo qual há
total conjunção entre as celebrações de 21 de março
e 24 de março.
E o
teatro onde fica dentro desse catálogo de datas
excelsas?
Augusto
Boal, no seu livro “Teatro do Oprimido e outras
Poéticas Políticas”, mostrou como o teatro pode ser
utilizado na luta pela construção de uma sociedade
justa. Não foi sem razão que, no Brasil, durante o
período de sua mais recente ditadura, peças foram
proibidas, autores e atores foram presos.
É
preciso que o teatro desça ao povo. Não haverá
efetiva igualdade racial enquanto o público presente
aos espetáculos teatrais for constituído
predominantemente de brasileiros de cabelos loiros e
tez branca.
Oscar
Romero, na Missa em praça pública, e os os grupos
Oficina e Arena, nos palcos disponíveis, quase
clandestinos, levantavam a mesma bandeira: Liberdade
e Justiça.
João Baptista Herkenhoff é
professor e coordenador da Faculdade Estácio de Sá
de Vila Velha e escritor. E-mail:
jbherkenhoff@uol.com.br Homepage:
www.jbherkenhoff.com.br Autor de Dilemas de um
juiz – a aventura obrigatória (Editora GZ, Rio de
Janeiro).
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