Existem tradições que sucumbem, seja pela
falta de praticantes ou pelo respeito aos direitos de
terceiros, que ofendiam.
Algumas tradições da vida universitária
estão sendo revistas ou contidas, pela desaprovação
social e por ações de órgãos públicos, mantenedores da
ordem e civilidade. O trote, inspirado na ambientação
dos calouros e comemoração do ingresso no terceiro grau
foi, por décadas, notoriamente violento e
desrespeitador, sob o olhar cínico e omisso de
autoridades, alunos e pais.
A ação da mídia, divulgando as barbáries de
alguns trotes, lembrou à sociedade que ocorrem mortes,
mutilações e seqüelas, sofridas por calouros que sequer
tiveram a oportunidade de concordar ou não com tal
violência. Hoje, promotores expõem aos calouros e
veteranos seus direitos e deveres, ações criminais e
indenizatórias tramitam pela justiça, faculdades
executam sanções administrativas e pais são aconselhados
ao acompanhamento dos trotes.
O trote violento está com os dias contados,
por medidas tão acertadas quanto tardias. Contudo, ainda
persistem alguns aspectos da vida universitária
carecedores de contenção.
Os tradicionais jogos universitários sempre
foram disputados pelas prefeituras, pois movimentavam o
comércio e incrementavam o turismo. Aos poucos, a
população das cidades que os hospedavam reparou nos
malefícios causados, bem maiores que o lucro auferido
por padarias, bares, restaurantes e baladas. O ensino
era interrompido em muitas escolas públicas, algumas
depredadas, o trânsito tornava-se caótico, o sono
perturbado e o império das bebidas, drogas e
licenciosidades era estabelecido.
Hoje, a maioria das cidades nega estádios e
hospedagem aos jogos universitários, que só sobreviverão
se abandonadas as práticas e posturas selvagens de
muitos atletas e torcidas.
A vida universitária não é um salvo-conduto
geral, nem pode submeter a sociedade à aceitação de
práticas que violam direitos alheios. É incrível a
metamorfose operada em alguns universitários, quando em
grupos, distantes da casa ou família. Aos poucos, e com
medidas que garantam a cidadania dos demais habitantes
da terra, aprenderão que os vizinhos da república têm
direito ao sono e a não terem os ouvidos continuamente
sacudidos por palavrões. Aos pais compete parte da
correção, quando ainda ouvidos.
A sociedade brasileira tem sido vítima de
turbas selvagens, sendo a universitária a de menor poder
ofensivo. Torcidas de futebol matam, mutilam e depredam
com hora e local previamente marcados. Festas rave,
famosas pelas drogas e beberagem, acontecem livremente,
desde que em local apartado. O poder público, na maioria
dos casos, lança, sobre tais ocorrências, distante e
omisso olhar. Algum agente da saúde pública já foi
visto medindo a nocividade do som, dentro das baladas,
ou ali também impera a lei do vale-tudo, ou do apartado,
ensurdecendo grande parte de nossos jovens ?
Os poderes públicos, Executivo e
Legislativo, deixam a omissão e partem para a
cumplicidade, quando das invasões e depredações do MST,
única turba capaz de julgar produtividades alheias,
sentenciar ocupações e executar penas privadas. Pelo
andar da carruagem, acabará sendo elevado ao status de
movimento social que não deve ser criminalizado, apesar
das ações anti-sociais que pratica e dos crimes que
comete.
Universitários são imaturos e joviais,
agindo ao sabor de tradições mal estabelecidas e
lideranças pouco ilustradas. São facilmente corrigidos,
até pelo fato de constituírem, os exaltados, minoria. No
fundo, são vítimas de nossa omissão.
pedroinovaes@uol.com.br
O autor é engenheiro agrônomo e advogado,
aposentado.