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Natal
sem fome
De novo a história se
repete e muitas campanhas começam a
ser desencadeadas contra a fome no
dia de Natal.
Todos sabem que essa
superação visa a dar comida a quem
passa fome o ano inteiro,
principalmente crianças. Elas são
felizardas por conseguirem alcançar
as benesses desse período, enquanto
muitas morreram vencidas fatalmente
pela fome.
Em virtude de um
vício nacional de só combaterem os
problemas depois de se tornarem
crônicos, caberia algumas
observações, sem nenhuma reprovação
a essas iniciativas. Primeiro seria
o fato da prestação de contas se
restringir somente ao montante
arrecadado, sem detalhar a relação
receita verso despesa. No máximo
apresentam alguns projetos ou
instituições beneficiados, sem
mencionar com quanto.
Mais grave,
entretanto, seria nunca haver
prestação de contas do valor total
arrecadado com as campanhas. Este
nunca é citado. Claro que se tal
campanha arrecada 10 milhões, todo o
valor deve ser empregado para a
finalidade específica, descontados
eventuais impostos, por vir o
dinheiro da população.
Não se sabe de alguém
conhecedor dessa prestação de contas
integral. Apenas exemplos não
justificariam. A prestação de contas
completa e detalhada traria maior
credibilidade às iniciativas.
Por serem apenas
sazonais, elas retiram o debate e as
ações concretas com vista a
erradicar a fome por todo o ano em
todo o planeta. As campanhas
ajudam, mas devem ser tratados pelo
que são; meros paliativos.
Todos devem colaborar
nos natais. Se isso, entretanto, for
apenas para deixar aliviados alguns
corações, achando que já fizeram a
sua parte o bastante, ao invés de
ser um bem, torna-se um mal
gigantesco. Nenhum organismo é
moldado a só ter necessidade de
comida nos fins de ano. A fome não
pode permanecer insolúvel o tempo
todo, acobertada por uma cortina de
campanhas em datas históricas ou
depois de catástrofes.
Natal sem fome é bom,
desde que não seja instrumento para
camuflar eternamente uma Nação
comendo apenas nos fins de ano e
passando a vida inteira com fome e
indigência.
Muita gente já penou
depois deste texto, escrito no Natal
de 2001. Como eu havia dito naquela
oportunidade, muitas pessoas vão
comer bem neste Natal, com a triste
certeza de que passarão fome durante
o próximo inteiro; sem levar em
conta de quem seja a culpa, este
mundo sé será minimamente justo
quando todos tiverem a oportunidade
de comer normalmente, sem fome
prolongada de pessoas, famílias e
nações. O ideal não é um Natal, mas
um mundo sem fome.
Pedro Cardoso da Costa/SP
Bel. Direito |