Ética da atividade empresarial
Bertolt Brecht,
na sua famosa peça “Ópera
dos três vinténs”, coloca o
dilema: prender o ladrão do
banco ou o dono do banco?
Essa frase é um
libelo contra o banqueiro porque,
à face do banqueiro, Brecht
coloca a dúvida: quem é mais
ladrão – o ladrão do banco ou o
próprio dono do banco?
Todos os bancos,
a própria atividade bancária
merece o anátema fulminante de
Bertolt Brecht?
É possível haver
ética na atividade bancária?
Ou ampliando a
indagação: as empresas em geral
podem ser éticas? A atividade
empresarial, por si mesma, nega
a Ética?
As empresas têm
como um dos seus objetivos o
lucro. O lucro pode ser
ético?
Comecemos pela
pesquisa etimológica.
Lucro tem origem
no latim “lucru”, que significa
logro.
Logro quer dizer
"artifício para iludir e burlar;
trapaça, fraude, cilada".
Neste caso, o
lucro é um logro, um artifício
para burlar, o lucro é uma
trapaça.
Se o lucro é uma
trapaça, o objetivo de uma
empresa é trapacear.
Através deste
encadeamento de frases estamos
construindo um silogismo ou um
sofisma?
A meu ver, se não
fizermos ressalvas, estamos
incorrendo num sofisma.
Não me parece que
a atividade empresarial, por sua
própria natureza, negue a Ética.
Mesmo a atividade bancária,
aquela que lida diretamente com
o dinheiro, mesmo essa atividade
não me soa, antecipadamente e
acima de qualquer consideração,
uma atividade que contraria a
Ética.
Parece-me, não
apenas possível, mas
absolutamente necessário, que as
empresas subordinem-se à Ética.
Pobre país será
aquele em que a atividade
empresarial estiver
descomprometida com a Ética.
Muitas empresas,
muitos empresários desconhecem o
que seja Ética, não têm o mínimo
interesse em que suas atividades
orientem-se por uma linha ética.
Mas me parece
injusto lançar este juízo de
condenação contra todas as
empresas.
Se algumas
empresas dão as costas para a
Ética, muitas outras optam por
uma linha oposta: fazem da Ética
um mandamento.
Vamos então ao
miolo desta página.
Quais são os
requisitos para que uma empresa
mereça o título de empresa ética?
Como fruto de uma
profunda reflexão, que me
acompanha de longa data,
proponho doze condições que me
parecem devam ser exigidas para
que uma empresa conquiste o
galardão ético:
1 – que a empresa
saiba respeitar e valorizar seus
empregados, tratando-os com
dignidade, justiça,
proporcionando a eles
oportunidade de crescimento,
entendendo que os empregados são
colaboradores, e não
subordinados e serviçais;
2 – que a empresa
saiba valorizar e respeitar seus
dirigentes, gerentes, ocupantes
de cargos de chefia, confiando e
enaltecendo seu esforço;
3 – que as
chefias exerçam seu papel
democraticamente, com delicadeza,
e não de forma autoritária; que
os chefes saibam elogiar e
estimular os auxiliares; que
emitam instruções operacionais
claras e de fácil compreensão;
que compreendam que o diálogo
favorece um ambiente feliz na
empresa, fator que contribui até
mesmo para maior produtividade;
que diretores e chefes entendam
que direção e chefia são missões,
e não privilégios, pois, em
última análise, todos somos
credores de consideração e
compreensão;
4 – que o
empregado, a que se atribui
alguma falta, tenha sempre o
direito de se explicar e de se
defender;
5 – que a empresa
crie e mantenha canais de
comunicação dos empregados com
as chefias, de modo que os
empregados possam apresentar
postulações, reclamar, sugerir;
6 – que a empresa
saiba respeitar o meio ambiente
repudiando toda e qualquer
agressão ambiental;
7 – que a empresa
não sonegue impostos mas, pelo
contrário, compreenda que pagar
impostos é uma obrigação social,
pois só através da coleta dos
impostos pode o Estado cumprir
seus deveres para com o povo;
8 – que a empresa
saiba exigir do Poder Público a
utilização correta dos impostos
para que o erário sirva ao bem
comum;
9 – que a empresa
rejeite qualquer forma direta ou
indireta de corromper
funcionários, agentes de
autoridade ou dirigentes
politicos com a finalidade de
desviá-los de seus deveres para
proveito da empresa;
10 – que a
empresa respeite a privacidade
do empregado, pois a privacidade
é sagrada; que jamais um
empregado seja repreendido em
público e de forma a ser
humilhado;
11 – que a
empresa respeite os direitos do
consumidor, que esteja sempre
pronta para atender reclamações
decorrentes de mau serviço ou
defeitos em mercadorias e que as
falhas encontradas sejam
prontamente reconhecidas e
corrigidas;
12 – que a
empresa, como um todo,
englobando empresários,
dirigentes, trabalhadores, sinta-se
parte de alguma coisa que é
superior à empresa: a Pátria, a
comunhão nacional, o sentimento
de que todos fazemos parte de
uma sinfonia universal, de uma
caminhada da Civilização e da
Cultura, na construção de um
mundo melhor.
João Baptista
Herkenhoff, 75 anos, é professor
da Faculdade Estácio de Sá de
Vila Velha (ES) e escritor. Tem
dado palestras e seminários
sobre Ética em todo o território
nacional. Autor do livro
Ética para um mundo melhor
(Rio, Thex Editora).
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