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Exaltação da Democracia
João Baptista
Herkenhoff
A exaltação do regime
democrático, seja em datas especiais, seja em dias
comuns, pode parecer de significado menor ou de nenhum
significado, principalmente para os jovens. Não será
despropositada a pergunta: qual o sentido de uma tal
celebração?
As novas gerações não têm a
possibilidade de estabelecer o cotejo entre regime
democrático e regime ditatorial. A liberdade parece-lhes
natural e diante de certos episódios lamentáveis que
maculam a Democracia podem ter a tentação de questionar:
na ditadura não seria melhor?
O grande desafio da Democracia
é justamente aceitar o impacto da liberdade. Dizendo em
outras palavras e recorrendo à força da expressão
popular, tão rica em potencial semântico: na Democracia
“tudo é colocado em pratos limpos”. Nas democracias: a
corrupção é denunciada; os jornais estampam nas
manchetes as falcatruas; são apontados para conhecimento
geral os conluios espúrios que traem o interesse público
em benefício de interesses particulares e de grupos
privilegiados. Nas ditaduras os mais vis procedimentos
medram de maneira profunda, sem que deles a opinião
pública tome conhecimento. Este não é um fenômeno das
ditaduras brasileiras, mas das ditaduras em todo o orbe
terráqueo. Só depois que caem as ditaduras, seus crimes
vêm à tona, os carrascos passam a ter face e nome, as
cifras dos ladrões são contabilizadas.
Suponho que seria de bom
conselho que, nas escolas de todos os graus, os
professores debatessem com seus alunos a questão
democrática.
É certo que ainda não
construímos a Democracia brasileira. É certo que
Democracia não é só votar, mas é muito mais. Democracia
é escola para todos, condições de vida digna para o
povo, saúde pública de boa qualidade, futuro para os
jovens, trabalho, moradia, segurança, esperança.
Mas jamais um povo chegará à
Democracia plena através de uma ditadura que se declare
provisória e que prometa para o amanhã os frutos da
liberdade e o sabor da Justiça.
Só o exercício democrático
constrói Democracia.
Talvez em nenhum país do mundo
a Democracia, no nível político, tenha alcançado tão
alto grau de prática efetiva como no Brasil
contemporâneo. Há um abismo entre a democracia política
que conquistamos e a democracia social, econômica e
educacional, ainda tão distante. Mas se conquistamos a
primeira, desde os idos das “Diretas Já”, podemos
conquistar também a Democracia plena que assegure à
generalidade das pessoas a realização das aspirações
condizentes com a dignidade humana de que todos somos
portadores.
João Baptista Herkenhoff, 74
anos, é Juiz de Direito aposentado. Foi um dos
fundadores e primeiro presidente da Comissão de Justiça
e Paz da Arquidiocese de Vitória e também um dos
fundadores do Comitê Brasileiro da Anistia (CBA/ES). Por
seu compromisso com as lutas libertárias, respondeu a
processo perante o Tribunal de Justiça (ES), tendo sido
o processo arquivado graças ao voto de um desembargador
hoje falecido, porém jamais esquecido. Autor de Direitos
Humanos – uma ideia, muitas vozes (Editora Santuário,
Aparecida, SP).
E-mail:
jbherkenhoff@uol.com.br
Homepage:
www.jbherkenhoff.com.br
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