29/08/2011
 

 
 
     

 

DESCRENÇA COLETIVA

Pedro Israel Novaes de Almeida

 

            A população brasileira não acredita na honestidade pública, e presume a corrupção, até mesmo quando inexistente.

            Séculos e séculos de desvios forjaram a noção popular de que o poder, em todos os níveis, abriga falcatruas e clientelismos, e que a maioria dos políticos participa, por ação ou omissão, dos procedimentos oficiais que envolvem atos de corrupção.

            É terrível a condição de um povo descrente, que acaba enxergando a corrupção como sina nacional, quase uma característica natural imutável. São poucos os eleitores que votam presumindo que o candidato escolhido seja, de fato, um ferrenho opositor da desonestidade pública.

            No Brasil, os poderes não são independentes, e tampouco harmônicos. O Executivo é refém do Legislativo, nutrindo-o com verbas, cargos e influências.

            Inexistem partidos, conceituados como grupamentos ideológicos, de valores assemelhados, mas amontoados de interesses pessoais e regionais. O circo político brasileiro é fundamentalmente cínico.

            No teatro legislativo, os atores mudam o comportamento, segundo a proximidade do poder. Assim, os que apregoavam a moralidade pública, quando na oposição, recitam versos que endeusam a governabilidade a qualquer custo, quando na situação.

            A função fiscalizadora do legislativo, preceito constitucional, foi amesquinhada a mero e descumprido dever da oposição, cabendo à situação embaraçá-lo, A oposição é tida como forçosamente apedrejadora, e a situação como ocultadora de desmandos.

            Nas alternâncias do poder, os eleitos, que reuniam multidões inconformadas com a imoralidade pública, pouco ou nada inovaram, mantendo incólumes hábitos e lideranças outrora combatidas. A governabilidade é inútil e enganosa, se tiver como preço o desmando, a corrupção e o compadrio.

            As alternâncias que não inovam esvaziaram as ruas e esquinas. Hoje, já não cabem passeatas pela liberdade de expressão e tantas outras bandeiras de outrora.

            Cabem, mas não ocorrem, passeatas e atos de inconformismo à corrupção, crime que mutila a educação, saúde, segurança, infra-estrutura e, principalmente, o direito coletivo de não mais ouvir relatos de imoralidades públicas impunes.

            Não deixemos que a descrença coletiva, já histórica, arrefeça o ânimo dos milhões de brasileiros que abominam a corrupção, e nem leguemos, às novas gerações, o fardo de nutrir, com impostos e votos, a imoralidade oficial.

            Convém deixarmos de lado as pequenas espertezas e exceções do dia-a-dia, não buscarmos o jogo de cintura como propulsor de carreiras e aniquilador de princípios, e, principalmente, deixarmos de fazer reverências e mesuras a desonestos oficiais, em verdade ladrões.

                                                                                          pedroinovaes@uol.com.br

            O autor é engenheiro agrônomo e advogado, aposentado.