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FESTAS CAIPIRAS
Pedro
Israel Novaes de Almeida
Referidas
como juninas, as festas caipiras
acontecem também em julho, e
constituem uma preciosidade de nossa
cultura.
Apesar de
reverenciarem os santos Pedro,
Antonio e João, são eventos pouco
religiosos, unindo fiéis e infiéis
de todos os credos. Católicos,
protestantes, espíritas e até
petistas varam a noite, alegremente.
Cabe a
Santo Antonio a mais difícil e
espinhosa das missões, socorrendo as
solitárias e esperançosas donzelas,
cujo confinamento rural limita a
convivência com possíveis
pretendentes. Para ajudar o santo,
estimular e desinibir os novatos,
nada melhor que vestidos
coloridíssimos e demonstração de
dotes culinários, além de muito
quentão e música ligeira, que judia
das solados das botinas. Dizem que o
santo só interfere em uniões
heterossexuais.
Pé-de-moleque, assados, cuscuz, doce
de batata, pipoca, curau, pamonha,
torresmo, bolo de fubá, geléia de
pinga e tantas outras guloseimas
nascem de ingredientes locais, sem
qualquer aditivo químico. A
fogueira, presença obrigatória, é
uma exigência do frio da época.
O
foguetório, com seus rojões e
buscapés, é tido como uma forma de
anunciar a festança, mas cientistas
desconfiam que seu criador
tencionava espantar os cachorros da
vizinhança. Os balões, que outrora
enfeitavam o céu, acabaram banidos,
por justa proibição legal.
O
ambiente é sempre familiar, e
lembra, às novas gerações, a origem
rural da imensa maioria das famílias
brasileiras, que orgulhosamente
ostentam a condição de caipiras. No
burburinho ensurdecedor das baladas,
ou coletivo solitário das internets,
é útil a lembrança de que temos,
todos, um pé no barro.
Enquanto
as mulheres disputam estampas e
cores, homens invariavelmente trajam
xadrez, dificultando a venda de tal
padrão, na zona urbana. Quando é
dito que alguém foi ao xadrez, o
entendimento é de que está preso ou
em alguma festa junina.
Nas
festas, o correio elegante é
concorridíssimo. Muitas vezes, o
arrecadador faz as vezes de linda
donzela, estimulando os trouxas à
curiosidade e resposta. Espertalhões
exigem recadinhos com foto e
localização da interessada. É
arriscado marcar encontros, sem
saber que figura encontrará.
São
divertidos os paus-de-sebo, que mais
parecem centros de treinamento para
quem deseja ser, no futuro, bancário
ou professor. No correr sobre
brasas, qualquer queimadinha
demonstra falta de fé, ou pés pouco
calejados.
As
quadrilhas divertem e animam, mas só
são aplaudidas nas festas caipiras.
Em outras ocasiões, acabam
perseguidas pela polícia. Existem
quadrilhas urbanas que não trajam
xadrez, por todo o país, até na
novata Brasília.
Ainda que
estudiosos e pesquisadores
identifiquem origens estrangeiras as
mais diversas, para as festas
juninas, elas continuam,
brasileiríssimas, mantendo a memória
de um estilo de vida e valores que
devemos preservar.
pedroinovaes@uol.com.br
O autor é
engenheiro agrônomo e advogado,
aposentado.
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