30/09/2011
 

 
 
     

 

PROJETO ESQUISITO

Pedro Israel Novaes de Almeida

 

            Projeto de Lei que obriga os políticos eleitos a matricularem os filhos, em idade escolar, na rede básica de ensino oficial, está angariando apoios e aplausos pela internet.

            Os apoios partem de cidadãos convictos da eficiência da proposta, e de tantos outros, sequiosos por vingança. No mérito, projeto é equivocado, injusto e infrutífero, além de inconstitucional, por castrar direitos de todos os cidadãos, sejam ou não políticos.

            A proposta não alcança a maioria dos prefeitos, deputados, senadores, governadores e Presidente da república, que não possuem filhos em tal idade. Atinge, indiscriminadamente, políticos sem qualquer influência no orçamento ou gestão do ciclo básico oficial de ensino, inclusive aqueles que vivem pregando e exigindo a melhoria do setor. O projeto distribui culpas e punições, como se cabíveis a todos os eleitos, penalizando a parte mais inocente da história: os filhos em idade escolar.

            Que culpa cabe ao filho do vereador do pequeno município, pelo desempenho da educação, encabeçada pelo prefeito ou governador ? Por muito menos, mandatários, ao longo da história, mereceram a pecha de fascistas e ditadores.

            Políticos, muitos, podem até matricular os filhos em escolas públicas, escoltando-os por um batalhão de professores, em aulas particulares. Outros podem fazê-lo por convicção, pois existem muitas escolas oficiais de bom nível, submetidas à gestão e orçamento semelhantes às que operam com ineficiência.

            A medida soa como obrigar médicos a tomarem laxante, sempre que o número de cidadãos desandados for significativo. Ninguém precisa experimentar a fome, para lutar pela alimentação alheia.

            A educação é reflexo da ação ou omissão de governantes, professores, funcionários, pais, e todos os setores da sociedade. Existem alunos incivilizados, pais omissos ou deseducados, professores que lecionam com brilhantismo em escolas particulares e com desdém em escolas públicas, arredores pouco policiados, atos de selvageria impunes, material didático obsceno, com erros grosseiros e tantas outras lamentáveis ocorrências.

            Visar o saneamento da educação, mirando os filhos dos políticos eleitos, é menosprezar o elenco de problemas que afligem o setor. O maior viés da medida é soar como redentora e justicialista, em primeira, apressada e superficial análise.

            A análise dos resultados da educação deve ser analisada em profundidade, para sabermos como uma escola tem bom desempenho e outra, no mesmo bairro e clientela, tem desempenho sofrível. Devemos saber como um aluno assimila o lecionado, enquanto outro, vizinho de carteira, nada aprende.

            A maioria dos alunos das escolas públicas brasileiras já conta com fartura de material didático, refeições, quadras esportivas, transporte escolar e o beneplácito dos Conselhos Escolares. Alguns freqüentam ambientes onde qualquer desrespeito é punido e outros estudam amedrontados, acuados e desestimulados.

            A educação brasileira é farta em discursos e estudos. Falta a análise das cenas e resultados de cada unidade de ensino. Não é o que fará o tresloucado projeto, caso erroneamente aprovado.

                                                                                     pedroinovaes@uol.com.br

            O autor é engenheiro agrônomo e advogado, aposentado.